Sobre o grupo

Grupo de Estudos formado por docentes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e outras instituições, voltado para a pesquisa, análise e compreensão dos fenômenos ligados ao desenvolvimento socioeconômico e a criminalidade e violência. O Grupo é liderado pelos docentes Ângelo Magalhães Silva e Thadeu de Sousa Brandão.

Contato, críticas, sugestões e artigos: gedeviolência@gmail.com

Blog de divulgação e vulgarização científica, criado em 22 de Outubro de 2012.

domingo, 14 de setembro de 2014

O simbolismo da Cruz e a modernidade

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais e Professor de Sociologia da UFERSA.

Neste domingo comemoramos a invocação da Santa Cruz, data especial para toda a cristandade. Percebemos com facilidade que a cruz é o maior símbolo do cristianismo. Seja em forma de crucifixo ou de cruzeiro, ela está presente nas igrejas, nos lares e nas vestimentas da maioria dos que se dizem cristãos.
Jesus de Nazaré, Cristo pela paixão e morte na cruz, foi condenado por uma Corte Romana e morreu de forma agonizante suspenso no madeiro. Era a pior forma de punição que o Império Romano reservava aos rebeldes, criminosos e outros tipos de delinquentes cuja situação jurídica era não serem cidadãos de Roma. Aos cidadãos a morte era rápida: decepamento. 
A distância histórica faz com que a morte na cruz perdesse o simbolismo que possuía para os primeiros cristãos que viviam no Império Romano. Hoje, convido-os a fazermos um exercício: imaginemos Jesus em nossa Era, sendo preso pelo Império Americano (não vejo melhor substituto) e condenado à.... cadeira elétrica? Alguns séculos depois, eis-nos usando o estranho símbolo de uma cadeira para simbolizar a paixão do Senhor. Achou um anátema? Pois os primeiros cristãos também acharam. Por isso, mais de três séculos se passaram até que a cruz se tornasse símbolo máximo da fé. 
A cruz é um símbolo que, ao carregarmos, causa escândalo. Primeiro, porque não deve ser levada ou postada como adereço decorativo ou símbolo de status. Ela é um peso que devemos carregar. Peso de termos em nós o sentido de transformação e de conversão que ela nos remete. O peso de toda a fé em Jesus Cristo, "para os que todos que nele creem tenham a vida eterna" (Jo, 3,15). Ou, como nas palavras do apóstolo: "Encontrado com aspecto humano, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz" (Fl, 2, 8).
Que cruz afinal devemos carregar? O Espírito Santo nos mostra o tempo todo: os miseráveis, os presos, os doentes, os depressivos, os que sofrem de alguma forma. Na modernidade egocêntrica onde tudo se remete ao EU, devemos olhar a cruz dos OUTROS. Chega de dizermos: "minha dor; meus problemas; meu, meu, meu!". Carregar de fato a cruz do Senhor no peito e na alma é poder, de forma consciente e cheios do Espírito Santo, como Simão carregou a cruz do Senhor, ajudar os outros na sua caminhada de dor por este mundo.
Estranho falar tanto em cruz quando, no Brasil por exemplo, tantas Igrejas têm vergonha de expô-la em seus altares. Assim como os israelitas precisaram de um símbolo visível para acreditarem (uma serpente de bronze), temos nós esse símbolo de amor supremo pela humanidade.
Jesus, por meio de seu Espírito Santo, nos convida a carregar sua cruz. Não sozinhos, pois ele carrega-a conosco, a fim de que carreguemo-la com nossos irmãos. Em comunidade, vamos juntos,  com a nossa Santa Cruz, unidos no amor e no exemplo de quem se humilhou na morte para se exaltar na ressurreição.
Cantemos com o bardo: "Olhe pra Cruz, foi por ti, porque te amo!".

Boa Semana e Paz e Bem a todos!

sábado, 13 de setembro de 2014

Entrevista do Prof. Thadeu Brandão do GEDEV ao Jornal de Fato sobre Armas de Fogo

Na edição deste domingo do Jornal de Fato, Caderno Segurança, página 6, o jornalista Fábio Dantas entrevistou o Professor Thadeu Brandão sobre Armas de Fogo.

Segue a entrevista na edição completa do Jornal, AQUI.


Relatório da ONU: "Brasil tem racismo institucional"

'Hierarquias raciais são culturalmente aceitas', diz relatório. Relatoras independentes visitaram o país em dezembro do ano passado.

O Brasil não pode ser chamado de democracia racial, mas é caracterizado por um "racismo institucional, em que hierarquias raciais são culturalmente aceitas", segundo estudo publicado no dia 4 de setembro e que deverá ser aprovado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU no dia 23 de setembro.
O documento foi produzido por Mireille Fanon-Mendes France e Maya Sahli, duas relatoras independentes escolhidas pela ONU, que visitaram o país entre 4 e 14 de dezembro do ano passado. Elas se reuniram com autoridades do governo em Brasília, Pernambuco, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro.
Segundo o documento, a participação dos afrodescendentes na economia nacional é de apenas 20% do PIB, apesar de representarem mais da metade da população do Brasil. O desemprego é 50% maior entre os "afro-brasileiros" do que entre os descendentes de europeus, enquanto a média salarial entre os afrodescendentes é de US$ 466, quase metade dos US$ 860 dos descendentes de europeus.
"O racismo permeia todas as áreas da vida, no entanto, tem sido difícil aos afro-brasileiros para levantar e discutir o assunto" já que ainda existe o "mito da democracia racial" no país, diz o relatório. "Isso é frequentemente usado por políticos conservadores para desacreditar ações afirmativas e políticas e leis direcionadas (aos afrodescendentes)", acrescenta.
As relatoras também afirmam que notaram que o círculo de pobreza, habitação e educação inadequadas, oportunidades de emprego limitadas e desafios da justiça "continuam a afetar as vidas de afro-brasileiros em múltiplos níveis e os deixam marginalizados". Segundo o documento, "a educação ainda é uma das maiores áreas de discriminação e uma das principais fontes de desigualdade".
O relatório também conclui que uma lei que incrimine o racismo é um passo bem vindo para a luta contra o racismo a grupos marginalizados. "É importante que essa lei seja implementada completamente", afirma.

Fonte: G1.

 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O deserto eleitoral. "O que é um programa de esquerda hoje em dia?'"

Entrevista especial com Francisco de Oliveira

Na íntegra, via UNISINOS.
 
“Não há partidos de esquerda, somente grupos que têm uma certa influência. A esquerda não tem chance de poder”, diz o sociólogo.
Foto: CartaMaior
“Até chegarem as eleições, mais de um ano depois, o que poderia ser consequência das manifestações de junho já se apagou”, afirma Francisco de Oliveira à IHU On-Line, ao avaliar possíveis impactos das manifestações de rua na escolha do candidato à Presidência da República deste ano. Para ele, os protestos foram efusivos, “como que avisando que o povo está desperto, mas não se viu nem nos partidos nem nos candidatos consequências das manifestações de junho de 2013. É lamentável, porque mostra que a política circula em áreas distantes das manifestações populares”. Para ele, as manifestações não terão impacto na disputa eleitoral “porque são efêmeras, têm pouca duração, o que é normal, porque não têm folego para atravessar meses de um deserto eleitoral”. E reitera: “Elas estão apenas na memória de pessoas como eu e você que gostamos de política, mas na maior parte da população, isso já passou. (...) Até os candidatos já se esqueceram das manifestações”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o sociólogo comenta as principais candidaturas à Presidência da República e salienta que não há diferenças substanciais entre elas. “Marina é mais liberal (...) adota programas que não são propriamente dela, mas o partido dela é fraco, ela é maior que o partido e não tem tradição de disputas eleitorais com programas inovadores”. Dilma, “por outro lado, não tem destacado nada em seu programa, porque vai continuar fazendo o que já faz”. E Aécio, apesar de ter sido governador de Minas Gerais, “não tem nada a dizer nacionalmente”.
Socialista, Chico de Oliveira também faz uma análise da situação da esquerda no Brasil e enfatiza que como os programas de governo “não têm mais nenhuma importância, ninguém vai defender um programa abertamente esquerdista, porque não tem mais base social”. Nesse cenário, o PT não representa mais o pensamento da esquerda, porque “perdeu o ímpeto de transformação e mudança”. Do mesmo modo, menciona, partidos de esquerda mais radicais “não têm nenhuma chance. Além do que, eles têm umas propostas muito extravagantes. Se o candidato promete sair estatizando empresas privadas, ninguém acredita nisso. Então, os candidatos que fizerem propostas desse tipo não terão votos”.
O sociólogo lembra que no passado o projeto político da esquerda era estatizar as empresas. Mas hoje, pontua, “ninguém pensa que isso possa se estender a outros setores”. E dispara: “E eu não vou pensar contra a maioria da população (risos), não por nenhuma reverência, mas porque não é plausível. O Brasil não tem recursos, o Estado não tem capacidade — nem necessidade — de ampliar o grau de estatização. Esse seria um programa socialista como um passo adiante no sentido da socialização, no sentido de distribuir a propriedade para a maior parte da população. Mas não é plausível, não é viável, e nenhum candidato é suficientemente maluco para propor uma coisa dessas. Eu, que também não sou candidato a nada, não vou embarcar numa canoa furada”.
Ele enfatiza que para a esquerda “ter alguma chance de influir na política do país, tem de estar antenada com os eleitores; do contrário só fica com propostas abstratas”. E conclui: “O programa da esquerda hoje é menos de explícitos programas econômicos e muito mais no sentido de ampliar programas de direitos humanos”.
Francisco de Oliveira formou-se em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. É professor aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo – USP.
Confira a entrevista.
Foto: ultimosegundo.ig.com.br
IHU On-Line - Como o senhor avalia a disputa eleitoral deste ano? Percebe alguma novidade?
Francisco de Oliveira – Não, nenhuma. Marina não tem proposta e ganhou destaque à custa da morte de Eduardo Campos, mas ela não tem nenhuma novidade. É uma falsa ambientalista. Na verdade, é uma liberal e isso é visível ao analisar suas propostas econômicas. A proposta da Dilma é continuar como está fazendo.
IHU On-Line – Mas a que atribui o crescimento de Marina nas pesquisas e praticamente um empate nas intenções de voto entre ela e Dilma?
Francisco de Oliveira – Marina aproveitou bem o fato de ser candidata — não que ela tenha sido leviana —, mas a morte do Eduardo Campos é que a fez uma candidata forte.
IHU On-Line - Quais são as diferenças, se existem, substanciais entre Dilma e Marina, especialmente no que se refere à economia e às políticas sociais?
Francisco de Oliveira – Não há quase diferenças substanciais entre elas. Diria que, basicamente, Marina é mais liberal, o que não está de acordo com a tradição brasileira; nós nunca fomos liberais. Não tem sentido ser liberal em um país que sempre foi dependente economicamente.
A diferença dela com a Dilma é que ela dá destaques a propostas que são programas liberais, como a autonomia do Banco Central, mas ela não tem dado maiores esclarecimentos a respeito disso. Dilma, por outro lado, não tem destacado nada em seu programa, porque vai continuar fazendo o que já faz. A Dilma é mais confiável do que a Marina.

“O país é que é católico tradicionalmente e aí não há diferenças entre presidentes ateus, evangélicos, católicos”

IHU On-Line – Por quê?
Francisco de Oliveira – Porque ela não está prometendo nenhuma revolução, a economia brasileira está bem, é uma economia sustentável, diante do quadro internacional. Marina se esconde atrás da fachada ambientalista, mas é uma liberal.
IHU On-Line - Quais foram os méritos e maiores equívocos dos três mandatos do PT na presidência?
Francisco de Oliveira – O mérito é identificável como uma tentativa de incluir mais cidadãos no circuito econômico, uma certa redistribuição de renda pelo consumo, mas o mérito não passa daí. Os equívocos do PT são os equívocos que já estão sendo externados na condução da economia brasileira. O PT não fez o que prometeu durante esses 12 anos. A condução econômica foi liberal, conservadora e não teve nenhuma novidade notável.
IHU On-Line - O discurso do PT sempre está aliado à imagem do ex-presidente Lula. Qual ainda é o peso dele no cenário eleitoral? É o mesmo das eleições presidenciais passadas?
Francisco de Oliveira – É declinante. Lula ainda tem peso, mas é declinante. É um presidente que resiste muito ao ostracismo. É um ex-presidente que está fora da cena central, e ele não é a exceção. Pensou que era, mas a disputa que está aí está mostrando que o apelo dele não é suficiente para colocar a candidatura de Dilma em outro patamar. Ela vai concorrer por seus méritos e não por causa do Lula. Ela já concorreu por causa do Lula na eleição anterior.

“Nem a Dilma nem o Aécio têm propostas que ameaçariam os interesses do capital”

IHU On-Line - Os demais candidatos evitam criticá-lo e muitas vezes fazem referência ao governo dele. Isso está associado à imagem que Lula tem ou se pensa que ele tem com uma parcela da população? A que o senhor atribui essa cautela dos demais candidatos em relação ao ex-presidente?
Francisco de Oliveira – Os políticos evitam porque ele ainda tem peso na política brasileira. É declinante, como falei, mas ainda tem peso. Depois, é de mau gosto atacar diretamente um ex-presidente, que ainda tem — embora muito apagada —, uma imagem de líder sindical, operário, então, as pessoas evitam atacá-lo diretamente.
Aliás, o ataque aos candidatos é muito atenuado. Recentemente vi o Aécio dizer que Marina era um FHC de saia. Esse foi o ataque menos disfarçado que saiu nesta campanha. E de fato parece que ele tem razão, porque a assessoria da Marina, pelo que se lê nos jornais, é basicamente tucana. Na verdade ela adota programas que não são propriamente dela, mas o partido dela é fraco, ela é maior que o partido e não tem tradição de disputas eleitorais com programas inovadores. Além disso, o ambientalismo dela é de fachada, porque você não muda um país desse tamanho, com tantas diferenças. Portanto, nem do ponto de vista ambientalista é possível ter um programa unificado para o Brasil, porque a Amazônia é uma coisa, o Nordeste é outra, o Sudeste, outra e o Centro-Oeste, outra. Quer dizer, um ambientalismo genérico não é nada.
IHU On-Line - Caso Marina seja eleita, quais serão as suas maiores dificuldades? Que novas alianças devem surgir dessa eleição?
Francisco de Oliveira – Todas as dificuldades, porque ela não tem base no Congresso, o partido dela é fraco, ela é maior do que o partido, e na tradição brasileira — que não é boa coisa — todo mundo adere ao poder, com diferenças sutis. Veja o exemplo do Itamar Franco. Ele não foi eleito, foi sucessor do Collor e completou o mandato até o Fernando Henrique aderir. FHC fez a sua base propulsora e chegou a dois mandatos na presidência, por voto popular.
IHU On-Line – Mas há riscos de não ter governabilidade caso Marina seja eleita?
Francisco de Oliveira – Terá governabilidade à base de muitas concessões, de muitas trocas. No Brasil, infelizmente, não existe um divisor de águas quando se chega ao poder. Todo mundo adere ao poder com maior ou menor intensidade.
IHU On-Line - Muitos acusam Marina de render-se à agenda de ordem religiosa, do risco de proselitismo caso ocupe o Palácio do Planalto, ou de apoiar o capital. Como o senhor avalia as críticas ao fato de ela ser evangélica?
Francisco de Oliveira – Isso é besteira. Marina não vai se adequar a uma agenda religiosa. O catolicismo é dominante no Brasil, mas nenhum governante faz um programa político católico. O país é que é católico tradicionalmente e aí não há diferenças entre presidentes ateus, evangélicos, católicos. Esse candidato ateu ainda não surgiu. Parece que Collor tinha tendências ao ateísmo, mas isso não faz diferença nenhuma. Num país desse tamanho, é tolo esperar influências religiosas no governo.
IHU On-Line - Como vê a derrocada da candidatura de Aécio Neves? O que isso demonstra sobre as pretensões do PSDB de disputar as eleições presidenciais futuras?
Francisco de Oliveira – Demonstra que os tucanos têm uma tendência a imolar. O Aécio foi governador de Minas Gerais, mas não tem nada a dizer nacionalmente. Ele estava em outro contexto, mas nacionalmente é outra coisa. Ele não tem propostas inovadoras e a resposta da população é mais ou menos essa. Os que são tucanos por convicção vão votar nele sem muito entusiasmo. O Serra seria um candidato mais contundente, mas os tucanos não o preferiram.

“O programa ambientalista da Marina não tem nenhuma importância eleitoral”

IHU On-Line – Por quê?
Francisco de Oliveira – Além de ser mais conhecido, tem posições e opiniões mais contundentes, mais duras.
IHU On-Line - O escândalo da Petrobras pode ter alguma repercussão nas eleições?
Francisco de Oliveira – Não. Talvez tenha uma repercussão no eleitorado que tem interesse em assuntos econômicos, mas no eleitorado em geral, para dizer que não terá nenhuma, terá pouca repercussão.
IHU On-Line - Como o senhor interpreta a postura do grande capital — produtivo, financeiro e agronegócio — nessa disputa eleitoral, de apostar em qualquer candidatura?
Francisco de Oliveira – Isso acontece porque as candidaturas se diferem muito pouco. Nem a Dilma nem o Aécio têm propostas que ameaçariam os interesses do capital. Então, as empresas estão fazendo a política tradicional de distribuir os ovos em várias cestas. Até a Marina vai ganhar dinheiro.
IHU On-Line - Como o senhor avaliou as manifestações do ano passado? O que surgiu dessas manifestações?
Francisco de Oliveira – Não surgiu nada. Foram manifestações muito efusivas, como que avisando que o povo está desperto, mas não se viu nem nos partidos nem nos candidatos consequências das manifestações de junho de 2013. É lamentável, porque mostra que a política circula em áreas distantes das manifestações populares. Os partidos e candidatos já têm seus programas, mas eles não têm nada a ver com as manifestações populares.
IHU On-Line – Por que as manifestações não geram um impacto na política?
Francisco de Oliveira – Porque são efêmeras, têm pouca duração, o que é normal, porque as manifestações não têm folego para atravessar meses de um deserto eleitoral. Até chegarem as eleições, mais de um ano depois, o que poderia ser consequência das manifestações de junho já se apagou. Elas estão apenas na memória de pessoas como eu e você que gostamos de política, mas na maior parte da população, isso já passou.

“A esquerda dá uma garantia de que a direita não vai voltar a atacar os direitos”

IHU On-Line – Então as manifestações não terão repercussão nas eleições deste ano?
Francisco de Oliveira – Não terão. Consequências decisivas, não. Até os candidatos já se esqueceram das manifestações.
IHU On-Line - Como o senhor vê o discurso recorrente da população de votar no “menos pior”, referindo-se ao PT ou à Marina?
Francisco de Oliveira – Essa questão está relacionada a duas coisas: em primeiro lugar, os candidatos não dizem o que pretendem fazer, os programas são cada vez menos explícitos e, em segundo lugar, a população não está informada em relação ao que cada candidato pretende fazer. Os programas são cada vez menos importantes para as campanhas. O que vale é a personalidade que está à frente da candidatura. Nesse caso estamos vendo que Marina teve um salto com a morte de Eduardo Campos, e ela passou para o primeiro plano da política. Mas se você avaliar as pesquisas antes, quando ela era candidata à vice-presidente, eles estavam bem posicionados, mas não iriam ganhar a eleição. Então, Marina teve um salto sem nada que creditasse suas palavras. Isso mostra que os programas são cada vez menos importantes ou até deixam de existir. Nesse sentido, o programa ambientalista da Marina não tem nenhuma importância eleitoral.
IHU On-Line - Algum partido representa um projeto que o senhor considera ser de esquerda nas eleições deste ano?
Francisco de Oliveira – Não, nenhum. Aliás, todos fazem questão de não se apresentarem como de esquerda. Parece que no Brasil só existe direita, mas é uma direita constrangida, que não tem coragem de dizer o que é. Na verdade, ninguém é direita, porque eleitoralmente isso é um desastre. Como os programas não têm mais nenhuma importância, ninguém vai defender um programa abertamente esquerdista, porque não tem mais base social. Então, esse não é mais um programa garantido. Quer dizer, regiões e setores sociais bastante deteriorados foram incluídos de certa forma em novos setores econômicos, mas isso não faz mais muita diferença do ponto de vista eleitoral.
IHU On-Line – Por que pessoas que se identificam com a esquerda o fazem tendo em vista o PT e não outros partidos de esquerda mais radicais? Nesse sentido, como o senhor avalia a baixa representatividade dos demais partidos de esquerda nas eleições?
Francisco de Oliveira – Porque o povo não é besta. O povo sabe, nós sabemos, você sabe, eu sei, que esses partidos radicais não têm nenhuma chance. Ninguém gosta de perder o seu voto. Esses partidos que estão na faixa estrema da esquerda não têm nenhuma chance. Além do que, eles têm umas propostas muito extravagantes. Se o candidato promete sair estatizando empresas privadas, ninguém acredita nisso. Então, os candidatos que fizerem propostas desse tipo, não terão votos. Outros que vão falar de um ponto de vista mais cultural e religioso, que falam de valores cristãos — que é uma coisa muito vaga —, também não terão votos. Alguns pontos controvertidos, como o casamento gay, também são polêmicos, porque existem muitas pessoas contra e nenhum candidato tem coragem de apresentar isso como proposta. Aliás, não faz nem sentido, porque quem decide isso não é o presidente, mas o Congresso Nacional, e o Congresso não é hegemônico a ponto de atacar posições radicais. Então, as eleições são sempre um pouco do mesmo.
IHU On-Line – Para o senhor, que é um socialista, o que seria uma proposta adequada de um partido que se diz de esquerda?
Francisco de Oliveira – É difícil. Eu não me arrisco a dizer nada (risos). O que é um programa de esquerda hoje em dia? Um programa de esquerda, no passado, foi um programa de estatizar, de colocar empresas sobre a influência estatal. No Brasil, a Petrobras e o Banco do Brasil ainda são estatais, embora tenham muitos acionistas particulares. Ninguém pensa que isso possa se estender a outros setores. E eu não vou pensar contra a maioria da população (risos), não por nenhuma reverência, mas porque não é plausível. O Brasil não tem recursos, o Estado não tem capacidade — nem necessidade — de ampliar o grau de estatização. Esse seria um programa socialista como um passo adiante no sentido da socialização, no sentido de distribuir a propriedade para a maior parte da população. Mas não é plausível, não é viável, e nenhum candidato é suficientemente maluco para propor uma coisa dessas. Eu, que também não sou candidato a nada, não vou embarcar numa canoa furada.

“A atuação da esquerda no Brasil tem que contemplar de forma mais consistente os direitos das minorias”

IHU On-Line – O senhor mudou sua concepção socialista? Em outra entrevista que nos concedeu, perguntamos se ainda era possível ser socialista nos dias de hoje e o senhor respondeu: “só vejo vermelho” . O que essa sua reflexão e a resposta anterior revelam sobre a esquerda? Ela mudou de rumo?
Francisco de Oliveira – A esquerda não mudou de rumo, mas a esquerda, para ter alguma chance de influir na política do país, tem de estar antenada com os eleitores; do contrário só fica com propostas abstratas. Eu não mudei, continuo socialista, mas tendo a ir adotando, progressivamente, medidas de socialização dos bens. Mas reconheço que a política brasileira hoje não tem viabilizado isso.
IHU On-Line – Então o senhor sugere uma renovação na esquerda?
Francisco de Oliveira – A esquerda é o único setor político que precisa sempre de renovação; a direita não, ela está lá, sempre com seus princípios imutáveis, que são a-históricos. A esquerda tem de estar antenada com a população. Se não, ela está fazendo proposta para quem?
IHU On-Line – Nesse sentido, o senhor enquadra o PT como um partido de esquerda que está “antenado” com a demanda da população e, por isso, se reestruturando?
Francisco de Oliveira – Não. O PT perdeu o ímpeto de transformação e mudança. Alguns setores continuam bastante combativos, mas o PT em geral, não. Na verdade, o PT é pior que o PSDB em relação ao conservadorismo. O PT já não tem mais nenhuma proposta e está administrando os ganhos que já teve ao longo da sua história.
IHU On-Line – Então, falar de esquerda no Brasil consiste em falar de alguns grupos de intelectuais ou de movimentos sociais que se identificam com a esquerda, mas não falar de um partido político que represente a esquerda?
Francisco de Oliveira – É. Não há partidos de esquerda, somente grupos que têm uma certa influência. A esquerda não tem chance de poder. A esquerda não é propriamente um programa político. Em determinados momentos históricos, ela toma formas de programas políticos bem explícitos. Em geral, o papel da esquerda não é formular programas políticos; é reformar, é civilizatório. Ela tem por tarefa domar as forças capitalistas num sentido de avanço dos direitos humanos. O programa da esquerda hoje é menos de explícitos programas econômicos e muito mais no sentido de ampliar programas de direitos humanos. É o que se vê no Partido Social Democrata na Europa. O Programa Social Democrata na Europa, por exemplo, não tem tanta diferença na condução de programas econômicos, porque os partidos conservadores não querem perder eleitores. Se você observar, nos últimos 50 anos, a direita administrou programas socializantes. Os sociais-democratas mantiveram diferenças no sentido da ampliação de direitos humanos. Isso continua sendo verdade. A esquerda dá uma garantia de que a direita não vai voltar a atacar os direitos. Isso é visível, com diferenças progressivas na Europa, mas no Brasil já chega a ser visível também.
IHU On-Line - Quais os desafios para o Brasil nos próximos anos, considerando que houve um aumento do salário mínimo, ingresso de mais pessoas à universidade, acesso a crédito, etc.? Quais os desafios no enfrentamento das desigualdades sociais daqui para frente?
Francisco de Oliveira – Isso continua sendo um programa. Só uma atuação consistente e persistente pode garantir a distribuição de renda razoável, a qual não vai ser profunda. A atuação da esquerda no Brasil tem que contemplar de forma mais consistente os direitos das minorias, porque os direitos das maiorias é fácil. Sempre foi assim na história do Brasil. O direito das minorias é sempre mais difícil, minorias de todo tipo, como os negros, por exemplo, que são uma parte expressiva da população, mas não chegam a ser a maioria, estão carecendo de uma ampliação de direitos. O programa da esquerda, daqui por diante, continuando com as reivindicações de tipo econômico, será, sobretudo, de ampliação e de afirmação dos direitos humanos.
IHU On-Line – Algum grupo da população brasileira pode decidir as eleições deste ano?
Francisco de Oliveira - Não. Não se notarão diferenças decisivas entre quem tem intenção de votar em Dilma, para continuar, a intenção de votar no Aécio, ou mesmo intenção de votar na Marina. Não há diferenças decisivas no eleitor.
(Por Patricia Fachin)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Políticas públicas, turismo e emprego no litoral potiguar

Jean Henrique Costa, Sociólogo e Turismólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor do Departamento de Turismo e do Programa de Pós Graduação em Ciências Humanas e Sociais da UERN.



O presente artigo discute a tríade “políticas públicas, turismo e emprego”, objetivando analisar as repercussões espaciais desencadeadas pelo desenvolvimento da atividade turística no estado do Rio Grande do Norte (RN), a partir da distribuição dos empregos formais originados entre os municípios englobados pelo PRODETUR/RN I. Destarte, as questões que nortearam este trabalho foram: em que medida a política pública de turismo denominada de PRODETUR/RN I foi eficaz para a geração de empregos nos municípios contemplados? Quais as características destes empregos? E como estes empregos se distribuem e repercutem espacialmente nos municípios integrantes? Isto posto, a área delimitada para o estudo abrangeu os seis municípios englobados por esse Programa: Natal, Parnamirim, Ceará-Mirim, Nísia Floresta, Extremoz e Tibau do Sul. A pesquisa de campo se fundamentou na aplicação de 186 questionários com trabalhadores empregados no turismo litorâneo potiguar, além da realização (secundária) de oito entrevistas com atores sociais diretamente ligados ao tema. Como considerações finais da pesquisa, tem-se que existe uma assimetria no espaço turístico potiguar, onde Natal é o lugar que recebe os maiores benefícios proporcionados pela atividade, enquanto os demais municípios dão sustentação.
 
Para ler o artigo na íntegra, clique AQUI.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mossoró: a primeira onda do desenvolvimento

Uma síntese histórica do maior grupo empresarial do RN

Tomislav R. Femenick, Mestre em Economia, pela PUC-SP , jornalista e bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Cidade de São Paulo. 

Na última quadra do século XIX, o cenário empresarial de Mossoró registrou uma grande expansão. A cidade já contava com quase uma centena de firmas e teve um crescimento que superou todos os mercados concorrentes. Essa onda de desenvolvimento atraiu, inclusive, pessoas e empresas de outros países que para lá foram, tais como: Johan Ulrich Graf, Feles Finizola, Leges & Cia., William Dreifles, Henri Adams & Cia., Gustav Brayner, Guines & Cia., Conrad Mayer e o português José Damião de Souza Melo. Afora os estrangeiros, mossoroenses e pessoas de outros lugares do Nordeste também abriam casas de negócios. Foi o caso da Casa Mossoró & Cia., do cearense Joaquim da Cunha Freire, o Barão de Ibiapaba, Oliveira & Irmão, Souza Nogueira & Cia., Mota & Cavalcanti, Vicente da Mota & Cia., as firmas de Joaquim Zeferino de Holanda Cavalcanti, Teodoro José Pereira Tavares, Miguel Faustino do Monte, Antonio Soares do Couto, Manuel Lucas da Mota, Benício Mota e muitos outros. Dentre eles destacou-se Francisco Tertuliano de Albuquerque.
            A presença de todos esses homens de negócios se refletia na intensa movimentação do porto de Areia Branca. De 1893 a 1895, cento e cinquenta e seis embarcações atracaram naquele porto e em 1911, cento e treze navios nacionais e outros 153 estrangeiros levaram produtos negociados por empresários de Mossoró, sendo 33 noruegueses, 30 ingleses, 50 alemães, 17 dinamarqueses, 10 suecos, seis holandeses, quatro portugueses, um americano, um francês e um russo. O porto de Areia Branca movimentava anualmente de 200 a 250 mil toneladas de cargas, enquanto o porto de Natal movimentava cerca de 40 mil e os de Fortaleza e Cabedelo, 90 mil cada um deles. Era o sétimo maior porto do Brasil, em movimentação de tonelagem. O porto dos mossoroense contribuía com 58% das receitas portuárias do Estado, enquanto que Natal contribuía com 40%, e Macau apenas com 2%.
Até o final do século XIX, todas as mercadorias exportadas pelas firmas de Mossoró seguiam-se até o Porto de Santo Antônio, localizado a jusante do Rio Mossoró, em carros de bois ou comboios de burros, que conduziam fardos de algodão, peles e cera. Dali, os volumes eram transferidos em embarcações à vela até Areia Branca, de onde por sua vez, eram levados aos navios de maior calado, que ficavam ancorados em alto mar. De volta, os carros de bois e comboios traziam mercadorias importadas do exterior ou outras regiões do país, que eram levadas para Mossoró, de onde eram remetidas ao alto sertão potiguar, ao Ceará, à Paraíba ou mesmo para Pernambuco.
Foi nesse cenário que, no ano 1869 o jovem Francisco Tertuliano de Albuquerque iniciou o seu comércio de fazendas, ferragens e miudezas, tudo em pequena escala, tanto assim que o seu capital inicial foi de apenas dezenove contos de réis. No ano seguinte a empresa foi devidamente regularizada, com o nome de F. T. de Albuquerque, e com a marca de fantasia de “Casa Tertuliano”. Depois sua razão social foi alterada, sucessivamente, para F. T. de Albuquerque & Cia., Tertuliano Fernandes & Cia. e, finalmente, S/A Mercantil Tertuliano Fernandes, em 1949. O primeiro gerente da firma foi o Dr. Euclides Saboia. A história da empresa está intimamente ligada à figura de Raimundo Nonato Fernandes, que nela ingressou como simples contínuo, foi nomeado gerente e, mais tarde, tornou-se sócio de seus antigos patrões.
A expansão das atividades do grupo (incluindo a negociação de cera de carnaúba, peles e outros produtos da região) e a adoção de técnicas modernas no setor algodoeiro e salineiro levaram a SAMTEF a ser o maior grupo empresarial do Rio Grande do Norte.

 O IMPÉRIO DO SAL

            No início do século passado, o sal potiguar era bem conhecido e aceito no nordeste e em poucas outras regiões do país, enquanto que no sudeste, no centro-oeste e no sul, era consumido quase que exclusivamente sal importado de Cádiz, na Espanha. Raimundo Nonato Fernandes conseguiu vender a uma firma sulina trezentas toneladas de sal, por preço irrisório. Não queria lucro com essa transação, sim abrir o mercado para o nosso produto. Com esse ato o sal de do Rio Grande do Norte se impôs aos compradores nacionais.
            Esse foi o primeiro passou para a criação do verdadeiro império empresarial representado pelas empresas produtoras e refinadoras de sal, controladas pela S/A Mercantil Tertuliano Fernandes: a SOSAL, Salinas Guanabara e SALMAC.
Até o final da primeira metade do século passado, nas margens dos rios Mossoró e Assú e de seus afluentes, o sal era produzido por processos arcaicos e antieconômicos. Somente a privilegiada localização das salinas é que pode sustentar essa “indústria artesanal”, com uma enganadora não necessidade de novas técnicas para se produzi-lo, muito embora o produto fosse caro, industrialmente falando. O sol abrasador, os ventos constantes, o solo impermeável e água com grau de salinidade superior à da água do mar escondiam essa carência. Porém novos tempos chegaram e a SAMTEF, correu em busca de novas tecnologias, que representassem menos custos.
A Salinas Guanabara S/A foi a primeira salina brasileira integralmente planificada e totalmente mecanizada. Uma verdadeira fábrica de fazer sal. A SUDENE a considerou como um dos empreendimentos prioritários para o “desenvolvimento zonal salineiro”, com produção de 150 mil toneladas/ano, nos primeiros anos de sua atividade. Ocupava uma érea de 10.000.560 metros quadrados e operava com apenas 114 empregados, em perfeitas condições de trabalho. Dispunha de uma vila operária modelo, ambulatório, cooperativa de consumo, posto de saúde, escritórios, oficinas e garagem, tudo com água encanada, energia elétrica e rede de esgotos.
A unidade produtora da SOSAL-S/A Salineira do Nordeste ocupava uma área de 26 milhões de metros quadrados, com uma zona de cristalização de 200 mil metros quadrados, onde no final dos anos 1960 eram produzidas 400 mil toneladas de sal. Tinha 80 empregados fixos e mais de 1.200, de setembro a março. Seu projeto incluía uma vila operária, oito alojamentos, um laboratório, um posto de observações meteorológicas, um restaurante, cooperativa de consumo, escola, clube para funcionários, ambulatório médico, escritórios, almoxarifado, posto de serviço e garagem.
Por sua vez a SALMAC-Salicultores de Mossoró Macau Ltda. era proprietária da Salina São Vicente, também em Mossoró, cuja capacidade de produção era de 30 mil toneladas anuais. Entretanto suas atividades principais eram o refino e a distribuição da produção de do sal do grupo nos mercados consumidores, principalmente nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso e Espírito Santo. No porto de Santos-SP, possuía instalações de desembarque, com equipamentos que possibilitavam um fluxo normal de 300 toneladas por hora e, ainda, um depósito com capacidade de armazenamento para 25 mil toneladas de sal. Na capital paulista possuía outro depósito, com capacidade de cinco mil toneladas, e, ainda, um centro de moagem e refino. No Rio de Janeiro, tinha um depósito para sete mil toneladas de sal e instalações de moagem e refino.

Visando obter recursos para incrementar o seu crescimento empresarial, a S/A Mercantil Tertuliano Fernandes se associou ao grupo do banqueiro Walter Moreira Sales (Unibanco), cedendo 50% das ações da SOSAL e Guanabara. Posteriormente, o grupo Moreira Sales transferiu sua participação para a norte-americana Morton International Inc. (hoje, Morton Nortwich Products Inc.), através de sua subsidiária Morton’s Salt Company, de Salt Lake City.

O IMPÉRIO DO ALGODÃO

             O complexo algodoeiro da S/A Mercantil Tertuliano Fernandes se espalhava por toda região oeste potiguar. Possuía unidades de compra e/ou beneficiamento de algodão nas cidades de Pau dos Ferros, Apodi, Caraúbas, São Miguel, José da Penha, Marcelino Vieira, Patu e outras, além de grandes instalações de descaroçamento, enfardamento de algodão e linter e prensagem e extração de óleo em Mossoró. Nessa última foi utilizado pela primeira vez no Estado, no início dos anos 1960, o sistema de extração de óleo com a utilização de solvente químico. Nessa mesma década, foram criadas duas empresas subsidiárias: a Usina São Vicente S/A passou a cuidar das operações de compra e descaroçamento de algodão, bem como a venda do produto para o mercado nacional. Por sua vez, a Fábrica Raimundo Fernandes S/A realizava a extração de óleos vegetais. Sua linha de produção era composta de óleo bruto, semirrefinado e refinado; linter, borra de linter, torta magra (farelo), casca e borra de óleo. Dentre esses produtos, destacava-se o óleo comestível da marca Pleno.
O próximo passo seria a implantação de uma unidade produtora de margarina, cuja maquinaria já estava sendo adquirida. Com o lançamento desse novo produto, a Fábrica Raimundo Fernandes completaria o ciclo de utilização integral dos recursos industrializáveis do caroço de algodão. A nova unidade estaria capacitada para produzir anualmente 2.290 toneladas de óleo bruto de algodão, 2.106 toneladas de óleo refinado, 1.310 toneladas de gordura hidrogenada, 1.700 toneladas de margarina, 61 toneladas de linter, 61 toneladas de borra de linter, 7.350 toneladas de torta magra (farelo), 1.225 toneladas de casca e 366 toneladas de borra de óleo.

OUTRAS ATIVIDADES

            Além dos complexos salineiro e algodoeiro, a S/A Mercantil Tertuliano Fernandes se dedicou também ao comércio e exportação de cera de carnaúba e couros, importação, navegação, agenciamentos, comissões, representações, consignações, agricultura, pecuária, administração de bens próprios ou de terceiros e particulares em outras empresas. Na Fazenda Itaoca, localizada nos municípios de Caraúbas e Apodi (com uma área de 6.000 hectares que continha dois açudes) possuía cerca de 2.000 cabeças de gado e aproximadamente 10 mil carnaubeiras.
            Também faziam parte do grupo as empresas Apodi de Administração e Participações S/A, a holding do grupo, e SOTRAN-Sociedade Brasileira de Transporte Rio Mossoró Ltda; está última fazia o transporte do sal das salinas ao costado dos navios em alto mar, com embarcações próprias.

 OS EMPREENDEDORES

A S/A Mercantil Tertuliano Fernandes somente conseguiu crescer graça ao espírito empreendedor de seus dirigentes. Homens com a visão de Francisco Tertuliano de Albuquerque e Raimundo Nonato Fernandes, na implantação da empresa, e Euclides Saboya, Vicente José Tertuliano Fernandes, Francisco Xavier Filho, Rodolfo Fernandes, Paulo Fernandes, Rafael Fernandes Gurjão, Julio Fernandes Maia, José de Oliveira Costa, e José Martins Fernandes, na etapa seguinte da sua consolidação.
No seu grande momento, durante a expansão de seus negócios pelo país, o grupo SAMTEF foi conduzido por Valdemar Fernandes Maia (presidente) e Antônio Florêncio de Queiroz, bem como Aldemar Fernandes Porto e Francisco de Queiroz Porto, além de Heriberto Escolástico Bezerra, Renato Costa, Gabriel Fernandes de Negreiros, Jorge Paes de Carvalho, Humberto Vieira Martins, Fernando Paes de Carvalho, Francisco de Assis Queiroz, Fausto Pontes, Francisco Canindé de Queiroz, João Marcelino, Genésio Rebousas e muitos outros. Todavia, o artífice do seu crescimento foi Antônio Florêncio de Queiroz. Dele foram todas as grandes ideias e todos os grandes projetos; era o porta-voz das inovações e da modernização da empresa. Foi eleito deputado federal por quatro legislaturas consecutivas.

 A CRISE DO ALGODÃO 

 É comum, inclusive entre estudiosos do assunto, atribuir-se ao bicudo (Anthononus grandis) a causa da crise da cotonicultura do Nordeste e, por extensão do nosso Estado. O certo é que foi uma série de fatores – que se sucederam e se repetiram ao longo do tempo – que impactaram o setor, provocando uma verdadeira hecatombe na agricultura, no comércio e na indústria ligada ao cultivo e beneficiamento do algodão. O bicudo apenas foi mais um desses fatores; muito danoso, porém não o mais letal.
A ação de combate à praga exigia a pulverização das plantações utilizando agrotóxicos altamente danosos à outras espécies; vegetais e animais. Dependendo da região e das condições locais, o custo anual do produtor no combate ao bicudo variava entre R$ 200,00 e R$ 300,00 (em moeda corrente), por hectare, o que inviabiliza a continuidade de muitos produtores no setor. Entretanto, “causa mortis” da nossa cultura algodoeira foram fatores econômicos, acoplados à baixa produtividade.
A escassez de recursos, as altas taxas de juros para financiamento da produção e beneficiamento da pluma e do caroço foram problemas levantados há quase sessenta anos nos “Encontros de Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”, organizados pela SUDENE em Mossoró, Caicó e Pau dos Ferros. Pelo que ali foi dito, o montante das linhas de créditos, oferecidas pelo Banco do Brasil e Banco do Nordeste aos agricultores e maquinistas, sempre foram insuficientes, fato que ensejou o aparecimento dos atravessadores. Esses agentes foram importantes para o sistema, porém agregavam os custos, que já eram exorbitantes.
Ainda no campo econômico, outro aspecto encarecia (e ainda encarece) a produção do algodão potiguar: a quase ausência de economia de escala. A nossa cotonicultura é oriunda de unidades produtoras familiares de pequenas dimensões, verdadeiros minifúndios, além do mais em espaços não contínuos. Cada uma dessas unidades cuida do seu preparo da terra, do seu plantio, da sua aplicação de defensivos, da sua colheita etc., numa cadeia de custos que se multiplicam. Por outro lado, a pequena dimensão das propriedades dificulta a mecanização dos processos, geralmente realizada com máquinas caras, até quando alugadas.
Matéria-prima prima escassa (e cara) sustou os projetos de crescimento e mesmo de continuidade das unidades algodoeiras do grupo SAMTEF.

 A CRISE DO SAL

A primeira grande crise nas unidades salineiras ocorreu em 1961, quando o Rio Mossoró invadiu as salinas de Mossoró, Grossos e Areia Branca, provocando um serio prejuízo aos industriais salineiros, pela destruição de aproximadamente 600 toneladas de sal e das benfeitorias existentes nas salinas. Entretanto o maior prejuízo foi causado às iniciativas de mecanização das salinas, principalmente aquelas desenvolvidas pelos grupos S/A Mercantil Tertuliano Fernandes, F. Souto, Paulo Fernandes e Miguel Faustino Souto do Monte.
A esse cenário se juntavam os altos custos de carregamento dos navios, transporte e desembarque nos portos do centro e sul do país, o mercado consumidor do produto. Essa fase era tão ou mais arcaica que a primeira, fazendo com que o sal produzido no Rio Grande do Norte custasse mais de seis vezes quando chegava a São Paulo e no Rio de janeiro.
A situação, que era delicada, caminhava para ficar alarmante. Durante a visita que realizou a Mossoró, em fevereiro de 1967, Mario Thibau, o então Ministro das Minas e Energia, declarou que a indústria salineira do Rio Grande do Norte poderia sofrer um grande abalo dentro de prazo médio. No mesmo ano, o Instituto Brasileiro do Sal foi extinto e em 1970 os norte-americanos adquiriram o restante das ações da SOSAL e da Guanabara, ficando com a totalidade do capital social de ambas, para o que teriam contado com recursos do grupo Rockefeller.
Foi o início do fim do maior grupo empresarial do Rio Grande do Norte.