Sobre o grupo

Grupo de Estudos formado por docentes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e outras instituições, voltado para a pesquisa, análise e compreensão dos fenômenos ligados ao desenvolvimento socioeconômico e a criminalidade e violência. O Grupo é liderado pelos docentes Ângelo Magalhães Silva e Thadeu de Sousa Brandão.

Contato, críticas, sugestões e artigos: gedeviolência@gmail.com

Blog de divulgação e vulgarização científica, criado em 22 de Outubro de 2012.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

“O capital está indo muito bem. Mas povo está mal, e por isso levanta a voz”, diz David Harvey

Na íntegra, via UNISINOS.

A presença do geógrafo marxista David Harvey lotou o Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) na noite desta terça-feira (18). Com o auxílio de aparelhos de tradução de áudio, o geógrafo britânico falou para mais de 700 pessoas sobre a Economia Política da Urbanização. Houve também a transmissão simultânea da palestra, acompanhada por internautas de vários estados brasileiros. O professor está no Brasil para lançar sua nova obra: Para entender o Capital: Livros II e III, que chegará às livrarias junto com o segundo volume de O Capital.
A reportagem é publicada por Terra de Direitos, 19-11-2014.

Conhecido pelas suas análises das dinâmicas do capital nas cidades, Harvey falou sobre a forma com a construção do capital nas cidades interfere no âmbito econômico e na insatisfação social. O pensador marxista destacou que as manifestações ocorridas em todo o Brasil, em junho de 2013, refletem isso. Os protestos, que começaram por razões isoladas, rapidamente se espalharam pelo país, e envolveram diferentes camadas da população.
Algo semelhante aconteceu na Turquia, no mesmo ano. Ambos os países estavam em crescimento econômico. Para Harvey, a resposta para a razão das manifestações terem sido realizadas em períodos de prosperidade é relativamente simples. “A renovação do crescimento econômico se dava em nível global, mas o crescimento não era do bem-estar social”. Segundo o geógrafo, os protestos são resultados de mais de uma década de insatisfação social.
A concentração de renda mundial é um dos sintomas dos limites do capitalismo. Harvey aponta que duas mil famílias do mundo possuem metade da riqueza gerada. “A classe capitalista não está interessada em mudar nada”. Desde 2007 e 2008 o grupo que se recuperou muito bem da crise financeira é o 1% mais rico, e as empresas capitalistas operam com altas taxas de juros. “O capital está indo muito bem. Mas povo está mal, e por isso levanta a voz”.

Direito à moradia X especulação imobiliária

Como exemplo dos problemas urbanos no capitalismo, o professor fala a questão da moradia, da construção de condomínios de alto nível, que geram empregos, mas potencializam a especulação imobiliária: “Muitas pessoas estão achando impossível arcar com os custos de viver na cidade onde moram. Nos Estados Unidos, por exemplo, a população de baixa renda gasta 80% da sua renda em aluguel”. Nesse país, a grande maioria da população tenta viver com menos de 30 mil dólares ao ano. No entanto, grande parte das pessoas paga mais de mil dólares ao mês de aluguel.
“Em Istambul [na Turquia] é impossível para pessoas normais encontrar um lugar para morar”, dispara o geógrafo, afirmando que as pessoas estão preocupadas com lugar para morar, enquanto o estado está preocupado em incentivar a construção de condomínios. “Por isso ateiam fogo nas favelas, e mandam o pessoal longe 30km, na periferia. Mas esse fenômeno não e só em Istambul. É em São Paulo, é global”, em referência a casos recorrentes de incêndios em favelas no Brasil.

Megaprojetos e megaeventos

Para Harvey, sempre houve acúmulo de riquezas e concentração de poder econômico na construção das cidades. “A idéia de urbanização é planetária. Estamos urbanizando o planeta a uma velocidade absurdamente alta”, provocando a platéia a lembrar de Curitiba nos anos 1970, e depois imaginar o que será daqui a algumas décadas, diante da velocidade do crescimento.
E megaprojetos e megaeventos estão na ponta dos processos de crescimento e mercantilização das cidades, em detrimento das necessidades da população. Esta situação pode ser vista no Brasil, em decorrência da Copa do Mundo de 2014: “O capital adora megaprojetos, megaestádios. Adora construir coisas para espetáculo, porque tem movimento instantâneo. Espetáculos são cada vez mais elaborados. Interessante que toda cidade onde ocorrem jogos olímpicos quebram”, aponta Harvey.
Diante do quadro crônico de desigualdade e do acirramento da exploração, Harvey concluiu a necessidade de lutar contra a maneira como o capital é construído nas cidades. “Se você está num sistema em que tudo está indo mal o tempo todo, temos que ver a teoria de Marx. Tirar o capital do caminho. O capital é um problema. E temos que inventar novas maneiras das pessoas irem bem sem depender do capital. A habitação é um direito, educação é um direito, e devia ser aberta para todos”. E assume um lado: “É por isso que sou anticapitalista”. 

Importância da discussão

Na apresentação de Harvey, Luana Coelho Xavier, advogada popular da Terra de Direitos e integrante do Mobiliza Curitiba, reforçou a importância de receber esta aula e este debate sobre o direito à cidade, já que Curitiba vive o processo de revisão do Plano Diretor, com pouco incentivo à participação popular.
“Será que o direito à cidade que a gente pensa é o direito a esta cidade? Ou precisamos lutar pelo direito à cidade que queremos?”, fazendo relação ao modelo de cidade que ganha força atualmente no capitalismo, com forte especulação imobiliária, expulsão dos mais pobres para a periferia e realização de megaprojetos e megaeventos que prejudicam a população.
Durante a mesa de abertura do evento, o coordenador da Terra de Direitos, Darci Frigo, destacou que a palestra realizada foi uma “oportunidade impar de enfrentarmos os problemas que a cidade vive, dando ênfase ao processo de revisão do Plano Diretor”. Frigo também apontou a visão positiva construída sobre Curitiba, que, na verdade, é marcada pela desigualdade.

Hilma de Lourdes, também presente na mesa pela União Nacional de Luta por Moradia, e representando a Frente Mobiliza Curitiba, destacou que “a luta hoje não é apenas pela cidade, mas ao Centro da cidade”.
O evento foi realizado pela Terra de Direitos, Programa de Pós-graduação em Direito da UFPR, Pró-polis (Núcleo de estudos de Direito Administrativo, Urbanístico, Ambiental e Desenvolvimento), e teve o apoio da Frente Mobiliza Curitiba.

Vera Karan, representando a reitoria da UFPR e professora do curso de Direito da universidade, Angela Cassia Costaldello, da pós-graduação em direito da UFPR, e Artur Renzo, Boitempo, também participaram da mesa de abertura.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A nudez, a arte, a hipocrisia reinante e o varejo da imbecilidade

Thadeu de Sousa Brandão, Sociólogo, Mestre e Doutor em Ciências Sociais, Professor de Sociologia da UFERSA e Coordenador do GEDEV.




Na semana passada, nosso provincianismo foi abalado pelo ato lúdico de uma aluna da UFRN que encenou, semi-nua, um ato anti dominação do corpo e das artes no que se referem às representações que nossa sociedade tem das mulheres.
Na taba cascudiana o clamor foi geral: "Ela está nua!!!" "Coisas das humanas ciências e sua predileção pela maconha??" "Turma que não se atém ao real e sim à arte em sua plenitude??" Além das consequentes reclamações à moral e aos bons e velhos costumes, etc. Nada de novo.
Vivemos em uma terra onde bons livros e de referência, desde a época de Luís da Câmara Cascudo, só podem ser comprados via catálogo ou hoje, via internet. Uma terra onde as livrarias fecham na proporção inversa e geométrica em que se abrem igrejas e bares. Faltam-nos galerias de arte. Contam-se nos dedos das mãos os museus.
Apesar disso, em nosso idolatrado estado elefante, sobram discursos hipócritas dos leitores do modismo em voga, pseudo-literário ou não, dos fãs do último exegeta da auto-ajuda. Isso quando o próprio Rei já está nu há tempos...
Não discorrerei sobre a arte e sua liberdade. Se até figuras autoritárias como Leon Trótski afirmaram que nada deve se impor à arte, que esta deve se encontrar na plenitude sempre da liberdade, o que explicar aos conterrâneos tabajaras?
Fecho aqui lembrando Schopenhauer para quem a arte era uma libertação da vontade: é através da arte, que o homem eleva a mente à contemplação da verdade, porém sem influência da vontade. É um elevar-se ontológico, que está acima da competição das vontades, volta-se para o mais profundo de seu ser e há o esquecimento do eu individual e de seu interesse material. Conclui-se que através da arte, o homem se liberta da escravidão que ele possui pela vontade.
Em nosso RN, onde abundam igrejas, farmácias e bares e quase inexistem museus, galerias e livrarias, estamos todos nus.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Rotherham e o abuso sexual de crianças : é nosso dever fazer perguntas difíceis


Slavoj Zizek. 

Tradução livre via texto original em inglês publicado no The Guardian.

Qualquer um que queira lutar pela emancipação não deve ter medo de analisar a religião e a cultura
A woman walks past a mosque in Turkey

O esboço do que aconteceu em Rotherham agora é mais ou menos claro: pelo menos 1.400 crianças foram submetidas a exploração sexual brutal entre 1997 e 2013; crianças a partir dos 11 anos foram estupradas por vários autores, sequestradas, traficadas para outras cidades, espancadas e intimidadas. Os autores são (quase exclusivamente) de origem paquistanesa, e suas vítimas eram frequentemente estudantes brancos.

As reações foram previsíveis. A esquerda apresentou o pior do politicamente correto, principalmente via generalizações: os autores foram vagamente designados como "asiáticos", foram apresentadas alegações de que não se tratava de etnia e religião, mas da dominação dos homens sobre as mulheres, além de que somos nós - com a nossa igreja pedófila e Jimmy Savile - que adotamos uma superioridade moral contra uma minoria vitimada... alguém pode imaginar uma maneira mais eficaz de abrir o campo para UKIP e outros anti-imigrantes populistas que exploram as preocupações das pessoas comuns? Tal anti-racismo é efetivamente um racismo mal dissimulado, tratamento condescendente  dos paquistaneses como seres moralmente inferiores que não devem ser mantidos sob nossos padrões.

Um dos efeitos terríveis da não-contemporaneidade de diferentes níveis da vida social é o aumento da violência contra a mulher - violência não apenas aleatória, mas violência sistemática, violência que é específica para um determinado contexto social, que segue um padrão e transmite uma clara mensagem.

Os assassinatos em série de mulheres em Ciudad Juarez, por exemplo, não são apenas as patologias particulares, mas uma atividade ritualizada, parte da subcultura das gangues locais, e dirigida a jovens mulheres solteiras que trabalham em fábricas - um caso claro de reação machista para a nova classe de mulheres que trabalham de forma independente.

Depois, há os estupros em série e assassinatos de mulheres indígenas no oeste do Canadá, perto de reservas ao redor de Vancouver, desmentindo a afirmação do Canadá em ser um modelo, o estado de bem-estar tolerante: um grupo de homens brancos raptaram, estupraram e mataram uma mulher, e, em seguida, depositaram o corpo mutilado no território de reserva, o que colocava-o legalmente sob a jurisdição da polícia tribais que são totalmente despreparados para lidar com esses casos. Nestes exemplos, o deslocamento social devido à industrialização e modernização rápida provocou uma reação brutal dos homens que experimentam esse desenvolvimento como uma ameaça. A característica fundamental em todos esses casos é que o ato violento não é uma explosão espontânea de energia brutal que quebra as cadeias de costumes civilizados, mas algo aprendido, imposta externamente, ritualizada, parte da substância simbólico-coletivo de uma comunidade.

A mesma lógica sócio-ritual pervertida é no trabalho, nos casos de pedofilia, que quebram continuamente a Igreja Católica: quando representantes de igrejas insistem que estes casos, deploráveis como eles são, são problemas internos da Igreja, e apresentam grande relutância em colaborar com a polícia em sua investigação, que estão, de certa forma, à direita - a pedofilia de padres católicos não é algo que diz respeito apenas às pessoas que passaram a escolher a profissão de um padre; é um fenômeno que diz respeito à Igreja Católica, como tal, que está inscrita em seu próprio funcionamento como uma instituição sócio-simbólica. Ele não diz respeito ao "privado" inconsciente dos indivíduos, mas o "inconsciente" da própria instituição: não é algo que acontece porque a instituição tem que acomodar-se às realidades patológicas da vida libidinal, a fim de sobreviver, mas algo que a própria instituição precisa para se reproduzir.

Em outras palavras, não é simplesmente que, por razões conformistas, a igreja tenta abafar escândalos de pedofilia embaraçosas. Em defesa própria, a Igreja defende o seu mais íntimo segredo obsceno. O que isto significa é que identificar-se com este segredo é um componente chave da identidade própria de um sacerdote cristão: se um padre sério (e não apenas retoricamente) denuncia esses escândalos, ele, assim, exclui-se da comunidade eclesiástica, ele não é mais "um de nós ".

E devemos abordar os eventos de Rotherham exatamente da mesma maneira: estamos lidando com o "inconsciente político" do jovem muçulmano paquistanês - não com violência caótica, mas com uma violência ritualizada com contornos ideológicos precisos: um grupo de jovens que se experimenta como marginalizados e subordinados se vingando de mulheres vulneráveis do grupo predominante. E é totalmente legítimo levantar a questão de saber se há recursos em sua religião e cultura que abrem o espaço para a brutalidade contra as mulheres.

Sem culpar o Islã como tal (que é, em si, não mais misógino do que o cristianismo), pode-se observar que a violência contra a mulher rima com a subordinação das mulheres e sua exclusão da vida pública em muitos países e nas comunidades muçulmanas, e que, entre muitos grupos e movimentos designados como fundamentalistas, a imposição estrita de uma diferença sexual hierárquica está no topo da sua agenda. Levantar essas questões não é ser veladamente racista e islamofóbico. É dever ético-político de todos os que querem lutar pela emancipação.

Então, como é que vamos lidar com tudo isso em nossas sociedades? No debate sobre Leitkultur (cultura dominante) de uma década atrás, os conservadores insistiram que cada estado foi baseado em um espaço cultural predominante, em que os membros de outras culturas que vivem no mesmo espaço devem respeitar. Em vez de lamentar o surgimento de um novo racismo europeu anunciado por tais afirmações, devemos voltar um olhar crítico sobre nós mesmos, perguntando até que ponto o nosso próprio multiculturalismo abstrato contribuiu para este triste estado de coisas. Se todos os lados não compartilham ou respeitam a mesma civilidade, em seguida, o multiculturalismo se transformará em uma forma de ignorância ou ódio mútuo legalmente regulamentada.

O conflito sobre o multiculturalismo já é um conflito sobre Leitkultur: não é um conflito entre culturas, mas um conflito entre diferentes visões de como diferentes culturas podem e devem coexistir, sobre as regras e práticas que essas culturas têm de partilhar se quiserem co-existir. Deve-se, assim, evitar ser pego no jogo liberal de "quanta tolerância podemos pagar do outro". A este nível, é claro, nós nunca somos tolerantes o suficiente, ou já somos muito tolerantes. A única maneira de sair deste impasse é propor e lutar por um projeto universal positivo compartilhado por todos os participantes.

É por isso que a tarefa crucial de aqueles que lutam pela emancipação hoje é ir além do mero respeito pelos outros para uma Leitkultur emancipatória positiva que só pode sustentar uma convivência autêntica de diferentes culturas.

Nosso axioma deve ser que a luta contra o neocolonialismo ocidental, bem como a luta contra o fundamentalismo, a luta do WikiLeaks e Edward Snowden, bem como a luta do
Pussy Riot, a luta contra o anti-semitismo, bem como a luta contra o sionismo agressivo, são partes de uma mesma luta universal. Se fizermos qualquer compromisso aqui, estaremos perdidos em compromissos pragmáticos, a nossa vida não vale a pena viver.
 
 

O Campo da Educação: de Darcy Ribeiro ao Ciência Sem Fronteiras

Edmilson Lopes Júnior, Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais e do Departamento de Ciências Sociais da UFRN.
 
Na íntegra, via Blog do Edmilson.
 
Em um ensaio de inauguração da revista “Encontros com a civilização brasileira”, que viria a ser um dos poucos espaços para o limitado debate público brasileiro na década de 1970, Darcy Ribeiro dissertou magistralmente sobre as obviedades que, segundo ele, teimávamos em reafirmar, alegre ou sofridamente, cotidianamente no Brasil. Ensaio curto, direto e escrito na linguagem irônica que o marcaria, “Sobre o óbvio” ainda é uma referência quando nos dispomos a enfrentar o desafio de emprestar contorno sociológico às conexões entre as esferas do cultural e do simbólico com as nossas configurações sócio-econômicas, como é o caso da proposta desta mesa.

Uma reflexão sobre a “’metapolítica’ cultural que estamos vivendo” hoje, quarenta anos depois, ainda tem muita a ganhar relembrando algumas das assertivas cortantes de Darcy. Dentre elas, a de que “no campo da educação é que melhor se concretiza a sabedoria das nossas classes dominantes e sua extraordinária astúcia na defesa de seus interesses”. Darcy Ribeiro, um dos principais atores da LDB, na primeira metade da década de 1990, infelizmente, não viveu para assistir e, certamente, analisar criticamente, as mutações do campo da educação no Brasil nas duas últimas décadas. Não tenho a pachorra de especular aqui o que o grande mestre teria a nos dizer a respeito da morfologia presente da sociedade brasileira, mas talvez não seja um abuso demasiado imaginar que ele continuaria a tomar o que ele denominou “campo da educação” como um ângulo privilegiado a partir do qual se possa construir uma sociologia política de nosso presente.

Antes de qualquer avanço analítico sobre o “campo da educação” (copyright Darcy Ribeiro) no Brasil faz-se necessário assentar algumas balizas para que esta intervenção não descambe para a afirmação de velhos lugares-comuns, ou o que seria pior, de velhas obviedades que ainda teimamos em repeti-las sofridamente. A primeira é que a própria indagação sobre a educação em um exercício de sociologia política que se pretende orientado para perscrutar as gramáticas culturais subjacentes aos discursos dos atores envolvidos com a produção e/ou reação às mudanças sociais dos últimos anos no Brasil necessita de uma justificação. Penso que reproduzimos nestes trópicos, de forma um tanto quanto cavilosa, o pacto parsoniano entre sociologia e economia na metade do século XX nos EUA. Aqui, o pacto implícito se deu entre pedagogia e um conjunto de outras disciplinas, particularmente a sociologia, que, não raro, teimou em não objetivar os termos e os temas dos debates sobre a educação no Brasil. E quando esse pacto foi esvaziado não o foi pela ação ou investida analítica da sociologia, mas, sim, sabemos todos muito bem, da entrada em cena, predominantemente da economia, e, em menor grau, da ciência política, ou, para ser mais preciso, do subcampo de análise de políticas públicas. Em relação à economia, importa chamar a atenção para o fato de que a mesma adentrou o campo com voracidade e muita disposição para conquistar o direito de dizer quais os pontos de discussão merecem estar na pauta da discussão.

Uma segunda demarcação, consequência da observação anterior, é a de que a separação entre os estudos da educação, da cultura e da política, justificáveis do ponto de vista da divisão social do trabalho no campo das ciências sociais brasileiras, traduz-se em uma dificuldade em produzir sínteses mais robustas sobre, por exemplo, a disputa em torno da distribuição de capitais culturais e simbólicos no país. Por isso mesmo, ao centramos a nossa investigação sobre a evolução recente do campo da educação brasileira talvez possamos apreender melhor as redefinições morfológicas da sociedade brasileira dificilmente apreendidas a partir de abordagens centradas nas erupções de baixa intensidade que marcam momentos conjunturais estabelecidos como significativos.

Mas esse exercício analítico exige, eu não diria coragem, mas uma sadia irresponsabilidade para romper a jaula de ferro na qual, segundo Darcy Ribeiro, a bezerra crescia e se tornava a Universidade brasileira, um ser estranho e pouco propício aos afoitos. Em linguagem mais palatável às sensibilidades do presente, poderíamos dizer que essa aposta encontra uma justificativa legítima na seguinte observação de Bernard Lahire, um conhecido de muitos dos que aqui estão: “os pesquisadores eles mesmo terminam por perder completamente o sentido das totalidades sociais e das ligações de interdependência que existem entre os domínios diferentes da prática  e transmudam o ator individual em improváveis e abstratos homo economicus, juridicus, politicus, psychiatricus, linguisticus, etc. Eles terminam, do mesmo modo, resvalando para a incapacidade de fornecer aos leitores não especialistas uma imagem minimamente clara da sociedade na qual vivem”.

Para se chegar, se não à totalidade advogada por Lahire, talvez mais como incitação provocativa do que como uma aposta epistemológica de fato, devamos romper também com as periodizações cristalizadas e auto-referentes com as quais os estudiosos da educação reconstroem a história do campo. Tomemos, então, um ponto arbitrário para cumprir o objetivo mais acima apontado.

1989. Primeira eleição direta para presidente. Menos de ano após a promulgação da então cantada Constituição Cidadã, a qual, segundo os porta-vozes do chamado “centrão” e do então Presidente Sarney, tinha concedido, generosamente, uma cesta tão pesada de direitos sociais que logo o país se tornaria ingovernável. Pois bem, nessa eleição, como nesta de 2014, a defesa da escola de tempo integral, não com a força de agora, também adentrou na pauta de discussão. Trazida por Brizola, a partir da experiência dos CIEPS, dirigida exatamente por Darcy Ribeiro. A proposição, lembrem-se os mais experientes, era tida como irrealista. Não exatamente irrealista, mas uma completa irresponsabilidade era a proposta da candidatura Lula de “nenhuma criança fora da escola”. Sem Brizola, sem Lula e sem revolução, em meados da década de 1990, finalmente alcançamos a universalização do ensino básico. Mais ou menos na época da promulgação da LDB e do início de um conjunto de redefinições das políticas educacionais. É também o momento em que as velhas narrativas sobre as conexões entre escola e trabalho, muito fortes em meados da década de 1970 e moldadas pela gramática marxista, deslizavam para a obscuridade, ou para o gueto corporativista onde ainda encontram, hoje, alguma audiência. E Bourdieu, cuja obra nos trópicos teve destino menos inglório que a Greta Garbo, não acabou no Irajá, mas, sim, alimentando uma retórica de “baixo clero” sobre a escola reprodutivista. Essa apropriação, claro, não foi a única (e nem a hegemônica, já que os deuses existem e, provavelmente, moram ali ao lado do Butantã!), pois, também nos ajudou a (re)pensar nossa moderna tradição cultural e as práticas de consumo de bens culturais. Mas, como eu ia dizendo, é nesse momento em que a conexão escola/trabalho escapa das grades analíticas tradicionais de uma esquerda universitária pouco sensível para as demandas do aqui e do agora que a racionalidade econômica, que então ganhava terrenos sociais e a adesão de subjetividades, começa a se impor com o norte que deve guiar as ações e políticas no campo educacional.
As velhas teorias do capital humano deixam de ser os pontos de apoio para uma subversão do campo e a imposição de uma humilhante derrota aos pedagogos tradicionais. Com o contrabando de capital acumulado no campo político foi possível, para os governos FHC e Lula, a reconfiguração dos sentidos a respeito dos objetivos do campo educacional brasileiro, e, o que é mais significativo sociologicamente, a gradual imposição de instrumentos de aferição/avaliação das ações educacionais e processos formativos. Ademais, a velha regulação tradicional exercida via o então Conselho Federal de Educação passa a se orientar por critérios transparentes e de acesso público como os indicadores resultantes da aplicação dos instrumentos avaliativos acima mencionados.
A reação corporativista de docentes e estudantes contra os instrumentos de avaliação é expressiva de uma movimentação mais profunda na vida social e política brasileira. Não é porque os atores são tacanhos que eles deixam de expressam dilemas e tensões significativas. Refiro-me ao fato de que essa reação, no campo educacional, fornece referentes importantes para a disputa política mais geral em torno de quem é a favor da transparência, da gestão racional do dinheiro público e da modernização da própria educação. Essa configuração levou a esquerda tradicional para o canto do ringue mais uma vez (boa parte dela já havia beijado a lona quando da derrocada do socialismo real).
Ora, quem, em sã consciência, seria contra a gestão racional dos recursos públicos e a avaliação dos resultados alcançados pela aplicação desses mesmos recursos. Mesmo aqueles que vão para o cadafalso saúdam o imperador. A violência simbólica é doce, sabemos. Questionar esses instrumentos é se colocar contra o óbvio, quem o faria?
A universalização do acesso ao ensino básico, já referida mais acima, foi um inegável avanço civilizacional. Mas esse avanço também se traduziu em uma explicitação dos dilemas da inclusão social. Os dilemas oriundos da incompatibilidade (ou da não conversibilidade) dos capitais familiares (especialmente aqueles que traduzem consumo de bens culturais distintivos) em capital escolar assomam explicitam-se fortemente. O vaticínio do antigo centrão pareceria se realizar, pois, o direito à educação parecia exigir mais e mais recursos. Pareceria, caso professores e alunos do ensino básico não se prestassem, na sua impotência, aos papéis de responsáveis pelo insucesso que os afunda. Tanto é assim que ainda, hoje, o piso salarial dos professores, essa conquista civilizacional, ainda é estabelecido, hoje, em muitas unidades da federação, com a mobilização pelos governos estaduais de artifícios jurídicos e criatividade contábil.
Em um primeiro momento, no início do Primeiro Governo Lula, parecia que a macha no que diz respeito à educação não difereria muito diferente daquela já estabelecida. Lembremo-nos de Cristovão Buarque, ministro da educação, afirmando que não tinha muito mesmo o que dizer e nem a propor para as universidades federais. Ou ainda o então poderoso chefe da casa civil dizendo (ou lhe sendo atribuída a frase, enfim) de que, talvez, fosse necessário ir pro pau com os professores universitários.
Mas antes mesmo que a guinada neodesenvolvimentista ocorresse as Universidades se ajustaram ao novo ambiente político, afirmando-se como atores indispensáveis para a qualificação do ensino básico. Não foi lenta a incorporação da base (ou “baixo clero”) docente das federais aos cursos de formação básica, com pagamento extra. Incorporada essa base, no início do segundo governo Lula, com o REUNI e o REUF, a educação superior passa a constar na agenda da inclusão social. Junte-se a isso expansão da rede de educação tecnológica, acompanhada da redefinição institucional e crescimento igualmente significativo dos antigos CEFETS agora IFs.
Não se trata e nem é possível fazer aqui uma arqueologia desse momento. Mas talvez seja possível indicar que a educação (olha que eu não estou mais falando em campo) passou a ser a base para a emergência social do que poderíamos denominar de campos de ação estratégica. Penso que essa noção torna operacional a análise do que a sociologia pragmática denomina de momentos de “prova”. Esclareço: a noção bourdieusiana de campo, contrabandeada para estas plagas sem muito cuidado no transporte, até rendeu belos frutos, mas esses frutos escasseiam quando direcionada para algo como o sistema educacional. Mas o que diabos vem a ser campo de ação estratégica e qual a sua instrumentabilidade heurística? Tomando como referência Neil Fligstein, mas indo irresponsavelmente além dele, podemos pensemos os campos de ação estratégica como um meso-nível da ordem social, uma estrutura básica, um bloco, contingente, no qual se organizam disputas fundamentais da vida política, econômica e social moderna. Esses campos têm forte ligação com o Estado ou se desenvolvem muito próximo deste.
Essa perspectiva nos ajuda a pensar o posicionamento dos atores e o seu lugar social em disputas que são substanciais e não apenas rearrumam a casa, mas implodem campos e fazem emergir outros. Esses campos de ação estratégica têm como pano de fundo um universo maior dificilmente apreensível a partir da cartografia tradicional dos campos a la Bourdieu.
Dito isso e caminhando para o fim, poderíamos propor que, nos últimos dez anos, campos estratégicos com capacidade de impactar fortemente a disputa política mais geral foram se estruturando no universo da educação brasileira, abrindo a oportunidade para a entrada em cena de novos atores com grande poder de fala, de imposição de agenda, como é o caso dos economistas, e não menos importante de setores do sistema financeiro. Não se trata apenas de uma consequência não-intencional das política inclusivas no sistema, as quais ampliaram o crédito educativo e, com o Prouni, possibilitaram não apenas a sobrevida, como prevíamos na metade da década passada, do sistema privada de ensino superior, mas, o que é mais importante, desse robustez e atração enquanto investimento para as empresas privadas de educação. Não me refiro a essa dimensão, embora ela seja importante demais para ficar em nota de rodapé. Refiro-me a emergência de um contexto cultural no qual agentes do sistema bancário puderam, assim como os economistas, ganhar audiência para as suas propostas para a educação brasileira. Tudo não passaria do anedotário. Mas, afinal, se entre nós dono de jornal é chamado de jornalista, por que banqueiro não poderia ser carinhosamente reverenciado como educador?
Mas placas tectônicas se moveram no universo da educação. Na superfície, campos estratégicos se organizaram em torno da inclusão social (debate sobre cotas, uso do Enem para acesso ao sistema universitário), financiamento da educação, certificação da formação, internacionalização do processo educativo, dentre outros. E aí nem sempre há a uma correlação muito bem definida das posições dos atores nos diversos campos. Não se trata também de trocar velho determinismo econômico pelo maniqueísmo do determinismo político, mas de bom alvitre perceber como nas disputas desses campos estão em jogo algumas das questões fundamentais da vida social brasileira. Não por acaso, talvez depois do chamado campo político, seja no universo da educação que tenhamos tido a eclosão de mais escândalos nos últimos, desde que entendamos escândalos (copyright Grun) como expressões de tensões e anúncios de chamada à ordem. As provas do ENEM, por exemplo, servem tanto para a produção de escândalos quanto as gravações telefônicas de um acerto em uma licitação. E a doxa não deixa de ser reafirmada, não sem certa virulência, no debate nesses campos. Basta ver a esse respeito a reação ao Programa Ciência Sem Fronteiras. Não importa que os dados indiquem que temos três vezes mais bolsistas na Alemanha do que em Portugal, os nossos analistas especializadas sempre irão dizer, como vimos em caderno de domingo do VALOR ECONÔMICO nestes dias, que os estudantes brasileiros só querem ir para a terrinha porque ninguém fala outro idioma nos trópicos, além, é claro, deles mesmos. Ora, pois, como diria Darcy Ribeiro, a gente nem fala português mesmo. O que sempre tivemos nestes trópicos foi uma língua geral, criada por africanos e nativos americanos para estabelecer a comunicação com os gajos d’além mar...
    
PS: O texto acima traduz um pouco uma intervenção que fiz em mesa-redonda na ANPOCS. Trata-se de uma abordagem ainda em construção, deixo claro. Lá na Várzea do Apodi, de onde venho, quando algum projeto (promessa) governamental era anunciado, a gente dizia: "não se isso vai chegar na Várzea, não...". Bueno, pode ser que essa reflexão em construção também não chegue à Várzea. Mas exponho-a mesmo, nem que seja para crítica de algum vírus internético.

domingo, 16 de novembro de 2014

Viver e conviver com a caatinga


Tomislav R. Femenick, Mestre em Economia, pela PUC-SP , jornalista e bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Cidade de São Paulo.



 

A caatinga (do tupi-guarani: caa, planta + tinga, cinzento = planta cinzenta) é um tipo peculiar de vegetação que predomina e caracteriza as regiões do semiárido nordestino. Esse conjunto de plantas de pequeno porte é um bioma exclusivamente brasileiro e é formado pelos tipos de clima e solo, que resulta em arbustos de pouca folhagem e floração, com aspecto frágil, lenhoso e áspero. As chuvas são irregulares, inclusive com secas periódicas. O solo, raso e pedregoso, é composto por vários e diferentes tipos de rochas.
Esse tipo de mata ocupa uma área de mais de 800 mil km², que corresponde a 70% da região nordeste e 10% do território nacional, e atinge 1.482 municípios dos Estados nordestinos e do vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Cactos, bromeliáceas (plantas de caule reduzido, folhas simples e inteiras) e outras xerófilas ocorrem de forma paralela, dando lugar a uma paisagem de grande contraste entre as épocas de estiagem e as chuvosas. Tem-se, também, o pereiro, o faveleiro, a baraúna, a aroeira, o angico, a quixabeira, a oiticica, o juazeiro, o pau-ferro, o mandacaru, o facheiro, o xiquexique, a coroa-de-frade, a macambira e a palma. As árvores da caatinga dispõem de recursos próprios para o uso intensivo das águas. Enquanto umas armazenam água em sua estrutura, outras possuem raízes superficiais e espalhadas para captar o máximo de água da chuva ou raízes profundas para atingir as regiões úmidas do subsolo. E há aquelas que possuem espinhos e poucas folhas, como meio de reduzir a transpiração das suas reservas de umidade.
Surpreendentemente, a sua fauna é rica e diversificada. Onça vermelha, veado-catingueiro, preá, gambá, sapo-cururu, cutia, tatus, ararinha-azul, asa-branca, macaco prego, saguis, capivara, tartarugas, cágados, jabutis, cachorro-do-mato, gato-do-mato, bicho preguiça, 45 tipos de cobras, 40 espécies de lagartos, aracnídeos, roedores, insetos, e muitos outros.
Quase 30 milhões de brasileiros vivem nas regiões de caatinga e dependem de seus recursos naturais para sobreviver. O problema é o uso intensivo desses recursos. Estudos do IBAMA calculam que, até o final da década passada, aproximadamente 43% da área de caatinga já tinha sido desmatada, o que acelera o seu processo de desertificação – a modificação ambiental que leva à formação de desertos. 
Esse desmatamento tem origem que vão além das causas naturais, como o permanente problema de escassez de água, agora agravado pela seca continuada dos últimos anos. Destrói-se a mata para implantação de projetos agropecuários: agricultura irrigada artificialmente e plantação de alimento para o gado, que logo são abandonados pela falta de água. Outra causa é a extração de madeira para produção de lenha e carvão, para uso doméstico e industrial, este principalmente em olarias. Entretanto, o desmatamento da caatinga não tem provocado o desenvolvimento econômico desejado. Contraditoriamente, essas regiões são as mais pobres do país e as que sofrem uma das maiores pressão populacional, o que resulta na região semiárida com o maior índice populacional do mundo.
Apesar de grave, o problema socioeconômico da população da caatinga não tem sido prioridade dos governos federal e dos Estados. As políticas públicas para essas regiões têm sido pontuais e irregulares; desde o Império, a República Velha até os tempos atuais. A grande lacuna é a descontinuidade dos programas que são criados em épocas de secas e desaparecem logo que caem as primeiras chuvas. Construir cisternas, distribuir água com carros pipas são socorros para evitar a morte pela sede. Todavia programas de desenvolvimento econômico não existem e, se existem, não são executados. Exemplo é a transposição das águas do Rio São Francisco, projeto prometido, alardeado, parado e esquecido.