Sobre o grupo

Grupo de Estudos formado por docentes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e outras instituições, voltado para a pesquisa, análise e compreensão dos fenômenos ligados ao desenvolvimento socioeconômico e a criminalidade e violência. O Grupo é liderado pelos docentes Ângelo Magalhães Silva e Thadeu de Sousa Brandão.

Contato, críticas, sugestões e artigos: gedeviolência@gmail.com

Blog de divulgação e vulgarização científica, criado em 22 de Outubro de 2012.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

GEDEV no II SIDACS

Segue a participação do GEDEV neste II SIDACS. Participe você também!


O que a campanha eleitoral revela e esconde

Na íntegra, via UNISINOS.

Temos um enorme bem comum mundial a gerir, um dos maiores territórios cidadãos do planeta, com fantástica biodiversidade, água e minerais. Neste sentido, a pergunta que, como brasileiros e brasileiras, não podemos postergar é ‘Que Brasil o Mundo Precisa?’. Será que estamos assumindo a nossa responsabilidade na construção de ‘outro mundo’”? O comentário é de Candido Grybowski em artigo  no Canal Ibase, 22-10-2014.


Eis o artigo.

Estamos tomados por uma acirrada disputa pela Presidência da República. O processo da campanha eleitoral levou à formação de dois grandes blocos em torno a Dilma e Aécio, numa combinação de elementos partidários, ideológicos, programáticos e, sobretudo, sociais e geopolíticos. É uma polarização muito contraditória, de coalizões pouco orgânicas no sentido de ideário mobilizador e projeto de sociedade em disputa. Reflete mais um país desigual, com processos diferenciados de emergência política de suas estruturas sociais, locais e regionais, do que a constituição de forças no seio da sociedade civil com poder de disputar hegemonia no sentido pleno da palavra. A polarização da disputa se deu mais pelas ameaças e possibilidades que sente a cidadania, das conversas no cotidiano e da propagação difusa na sociedade, do que por influência dos debates na televisão e da campanha eleitoral na mídia.
Um primeiro aspecto a destacar nesta situação é o quanto a emergência de tal polarização pode fazer bem à democracia no Brasil. Afinal, é o país real que configurou isto, mais do que os partidos e os políticos. A polarização revela vitalidade, que pode levar a uma nova onda de democratização. Mas, ao mesmo tempo, precisamos considerar o fato que uma importante franja, algo em torno a 20% da cidadania, não se sente espelhada em tal polarização e pode não votar ou anular o seu voto, mas é um conjunto importante politicamente no debate de nosso futuro e dos caminhos a construir. Enfim, está dada uma agenda para a reanimação e revitalização da democracia, começando com uma profunda reforma da política, enquanto espaço comum de disputa de sentidos e projetos, e da institucionalidade política, partidária, participativa e eleitoral, de constituição da representação nos poderes executivo, legislativo e judiciário.
Um segundo elemento decorrente da enorme polarização que vivemos tem a ver com o que significará a vitória eleitoral de uma das coalizões, mesmo difusas como se apresentam. A democracia é um método de luta sem eliminação de adversários. Mais, a democracia é sempre de acordos e ações possíveis num quadro de relações de forças. Trata-se de uma “instabilidade criativa”, de “pactos de incertezas”. O bloco derrotado nas eleições é também parte do poder instituído e sem ele a própria democracia perde sentido. Claro, no Brasil, ainda estamos longe de admitir que uma vitória democrática não dá poder absoluto. Trata-se de um mandato delegado pela cidadania para dirigir responsavelmente o poder político e a gestão do Estado, sempre com responsabilidade compartida e controlada pelas forças adversárias. Ou seja, ganhará a cidadania e a democracia no Brasil se mais negociações entre forças políticas se tornarem necessárias para definir o melhor programa, as melhores políticas, as leis, regulações, taxas e impostos, os projetos e montantes do investimento público.
O terceiro aspecto, razão de ser de minha crônica, são os “subentendidos” da polarização. As ausências em termos programáticos se destacam dos dois lados. A polarização não se fez em torno de projetos e programas de futuro, mas de posições, de trincheiras de classes sociais, de regiões e territórios e de como a cidadania se sente ameaçada em seu modo de vida. Na verdade, destaco o subentendido das ausências pois elas são parte real da polarização e da disputa eleitoral, mas parte não debatida publicamente. Votamos dando um cheque em branco para os candidatos.
Aqui poderia destacar um monte de questões que precisaremos enfrentar desde o dia 27 de outubro, pois não poderão ser adiadas ou deixadas para ser resolvidas por si mesmas. A mais evidente é a crise ambiental, a nossa crise ambiental. No país das maiores reservas de água doce falta água! No imediato é uma questão de gestão, de falha das políticas, do esperar que o pior não aconteça. No longo prazo é também uma questão estrutural, de modo de desenvolvimento predatório, do modo como tratamos nossos bens comuns, entre eles um dos mais essenciais à vida: a água. A crise energética está ligada à gestão da água. A própria agricultura está ameaçada pela falta de água. Trago aqui o tema da água pois apesar do tamanho do problema parece que ele não existe.
O debate do desenvolvimento até apareceu nas entrelinhas, nos jornais diários impressos que atingem as elites das coalizões mas não o grande público, um debate entre assessores e gestores de políticas monetárias e fiscais, entre ministros e candidatos a ministros. Nada convertido para a disputa eleitoral aberta. No entanto, é dele que se trata. Lamentavelmente, estamos diante de ameaças de um neoliberalismo arrogante de livre mercado para crescer e de um desenvolvimentismo destruidor regulado pelo Estado para crescer com distribuição social. Está totalmente ausente, nem Marina simbolizou isto, o necessário debate sobre “alternativas” para transformar a economia e torná-la social e ambientalmente sustentável. Seria muito simples se nosso problema fosse apenas ter inflação controlada e boas taxas de crescimento, escolhendo qual o caminho para crescer. Nosso problema mais urgente é enfrentar a desigualdade social e a destruição ambiental ao mesmo tempo, de forma democrática. É neste futuro que penso quando proponho pensar em fundamentos éticos para modelos de biocivilização como futuro possível.
Isto me remete à questão totalmente ausente: que Brasil estamos construindo? Em que bases que não sejam destrutivas e socialmente excludentes? Para quem? Acho, como disse acima, a polarização política atual um começo, um ponto de partida. Simplesmente isto. Temos que aprofundar as contradições que ela contem e fazer emergir um real debate sobre o Brasil no século XXI. Penso num Brasil que possa caminhar mudando profundamento as bases da civilização atual do ter e acumular sem limites. Precisamos começar aqui e agora definir novas bases, tirando partido do que somos, um país de 200 milhões de habitantes, de uma cidadania ativa ímpar se olharmos o mundo, tanto em termos de tecido organizativo como em formas de participação social e política. Temos um enorme bem comum mundial a gerir, um dos maiores territórios cidadãos do planeta, com fantástica biodiversidade, água e minerais.
Termino esta crônica com uma ideia força no debate logo após a “solução” de nossa disputa eleitoral. Penso que temos o direito e a responsabilidade de pensar o mundo a partir do Brasil. As mudanças geopolíticas em curso, reveladoras da crise da civilização capitalista industrial,produtivista e consumista, não apontam somente para novas forças emergentes, potenciais imperialismos do amanhã. O momento pode significar uma oportunidade de mudar a organização da própria humanidade, em formas mais democráticas e compartidas. Neste sentido, a pergunta que, como brasileiros e brasileiras, não podemos postergar é “Que Brasil o Mundo Precisa?”. Será que estamos assumindo a nossa responsabilidade na construção de “outro mundo”?



Diálogos e Pesquisas: imagens do evento de ontem

Ontem o GEDEV (Grupo de Estudos Desenvolvimento e Violência) trouxe mais uma edição do Projeto de Extensão "Diálogos e Pesquisas", com o tema "O Anarquismo e o Saber Científico", palestra proferida pelo professor Bruno Camilo (UFERSA/DACS) e mediada pelo professor Ângelo Magalhães Silva (UFERSA/DACS/GEDEV). A mesma ocorreu no Auditório do DCAT, Campus Leste, UFERSA. Auditório cheio e entusiasmado debatendo a temática.












quarta-feira, 22 de outubro de 2014

II SIDACS - II Seminário Indedisciplinar do DACS/UFERSA



Diálogos e Pesquisas: O Anarquismo e o Saber Científico






O GEDEV (Grupo de Estudos Desenvolvimento e Violência) traz mais uma edição do Projeto de Extensão "Diálogos e Pesquisas", com o tema "O Anarquismo e o Saber Científico", palestra proferida pelo professor Bruno Camilo (UFERSA/DACS) e mediada pelo professor Ângelo Magalhães Silva (UFERSA/DACS/GEDEV).

Local: Auditório do DCAT Campus Leste (vizinho ao Expocenter)
Data: 22/10/2014
Horário: 19:30h

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Mal-Estar na Sociedade Brasileira

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na USP e pesquisador 1-A do CNPq.
 
Por que nos sentimos tão mal na vida social? Este é um tema constante nas conversas, na experiência social, pelo menos do meio social e cultural a que pertencemos, nós, autores e leitores desta revista. Estamos insatisfeitos com a má qualidade dos serviços públicos. Muitos reclamam da corrupção que veem em um ou mais dos três níveis de governo. E há mais, muito mais. Mas, tal preocupação não parece adquirir tanta relevância no discurso e na prática dos políticos. O que, neste mal-estar, depende da política e de seus atores? E o que vem das linhas mestras da vida contemporânea, como, por exemplo, a crescente individualização, notada desde, pelo menos, o final do século XVIII, trazendo, por um lado, maior liberdade pessoal e, por outro, um enfraquecimento do laço social? Aqui, à diferença dos números anteriores da revista, e justamente porque este número vai circular durante as eleições, a ênfase será mais na vida social do que na política. Porém, o quadro aqui desenhado pretende ser também um desafio para futuros governantes e agentes políticos em geral.

* * *

Há que perguntar, inicialmente, quem é este “nós” que sente tal mal-estar. Duas narrativas antagônicas cindiram a sociedade brasileira nos últimos anos. Por coincidência, a revista Inteligência dedica a capa de seu número mais recente ao que chama “Mal-estar na burguesia”1: quem estaria descontente seriam as classes médias e altas, ao contrário dos mais pobres, beneficiários principais da forte inclusão social ocorrida nos últimos dez anos. Temos, hoje, com efeito, um corte radical entre duas narrativas sobre o Brasil. Uma delas, a mais presente na opinião pública, isto é, na mídia e nas camadas sociais com maior acesso a ela, mas derrotada nas eleições gerais de 2006 e 2010, condena fortemente os governos do PT, entende que eles promoveram a corrupção em escala inaudita no País, acusa-os eventualmente de demagogia e até mesmo de comprarem votos populares com seus programas sociais2. Outra corrente, com menor presença na mídia, mas alguma frequência nas redes sociais –detentora de maioria no eleitorado nas eleições de 2006 e 2010 –, aprova os governos do PT, porque integraram na sociedade de mercado ou dos direitos grande número de pobres e, implantando programas como o Bolsa Família, o ProUni, as cotas e o Mais Médicos, melhoraram a vida de muitos brasileiros. Até mesmo no plano ético temos uma clara cisão. Para a oposição, a grande questão ética é a da corrupção ou não no trato dos dinheiros públicos, enquanto para a situação o ponto ético por excelência é o fim da miséria. O que para um lado é ético, para o outro, praticamente não se menciona. Vivemos, assim, uma divisão bastante acentuada entre duas visões do Brasil. O problema é que esse racha não se limita à interpretação dos fatos. Se tivéssemos pelo menos um acordo quanto aos fatos e uma divergência quanto à interpretação estaríamos possivelmente em uma situação melhor, do ponto de vista do diálogo. Mas, os próprios fatos são vistos de forma diferente pelas duas famílias da divisão. A oposição tucana concentra o fogo no que chama mau desempenho da economia, enquanto a situação nega que seja essa a condição real do País. E até mesmo no lazer vimos a divisão, quando segmentos da população que, em outros tempos, teriam torcido pela seleção brasileira na Copa do Mundo, afirmaram desejar a derrota do Brasil, para evitar que o governo fizesse uso eleitoral dela.
Daí que cabe a pergunta: mal-estar para quem? Temos um mal-estar da sociedade inteira ou ele está concentrado nas camadas sociais mais abonadas? Trata-se de um sentimento de forte marca ideológica, ou corresponde ele a uma realidade efetiva? Lembro que, quando, nos anos 1980, muitos de nós, professores universitários, reclamávamos da má qualidade do ensino público gerada pela ditadura – antes deste dado as escolas pertencentes ao Estado muitas vezes figuravam entre as melhores do País – e ouvíamos a resposta, dada já por gestores democráticos, como, por exemplo, colaboradores do governo Franco Montoro, em São Paulo, segundo a qual a boa qualidade anterior servia a uma elite, enquanto a má qualidade na época representava, apesar de tudo, uma promoção para as multidões que antes não tinham acesso à escola. Com efeito, até o final dos anos 1960, se prestava um vestibular, o “exame de admissão”, para se entrar no ginásio, que corresponderia ao atual sexto ano do ensino fundamental – o que hoje soa como uma política absolutamente desastrosa no trato das crianças, no caso, pobres. Certas reclamações precisam, assim, ser consideradas cum grano salis. Até porque não estão fora do quadro de uma forte polarização política que marca o País desde o momento – para uns feliz, para outros, infeliz – em que após o impeachment de Fernando Collor, os dois melhores grandes partidos que temos, PT e PSDB, assumiram cada um a liderança de um lado do espectro político. 

Para ler o restante do artigo, clique AQUI.

sábado, 4 de outubro de 2014

A hipocrisia do Ocidente reforça o regime brutal de Assad

Na íntegra, do Observer, via Carta Capital.

Ao combater o Estado Islâmico com uma operação amplamente hipócrita, EUA e Europa estão atraindo apoio para o extremismo

Mulher curda chora ao cruzar a fronteira da Síria com a Turquia em Suruc, na quinta-feira 1º. Dezenas de milhares de curdos sírios deixaram o país nos últimos dias após uma nova ofensiva do Estado Islâmico

Por Nick Cohen

Depois que os militares corromperam a língua inglesa com a expressão "danos colaterais", eu gostaria de apresentar o igualmente delicado e igualmente enganoso "benefício colateral". Espero que você goste da maneira suave como o eufemismo escorre dos lábios; a sutileza imperceptível com que ele confunde a responsabilidade.
A frase implica, sem ser tão crua a ponto de dizê-lo em voz alta, que o Ocidente não pretende que criminosos em massa lucrem com suas guerras, assim como não pretende que civis morram em seus ataques aéreos. Quando os contadores da violência fizerem seu cálculo, se os ditadores forem tão triunfantes quanto os civis estão mortos, não é problema nosso.
Bashar al-Assad hoje desfruta dos benefícios colaterais da política externa ocidental. Não é que ele, e por extensão o Irã e o Hizbollah, seja nosso aliado formal. Ainda temos nossos padrões, afinal. Se o poder deles for reforçado, e o bombardeio e a chacina de civis continuar, lamentamos, naturalmente. São efeitos colaterais imprevistos que ninguém pode esperar que controlemos.
O sofrimento humano não é uma competição. Não se podem medir pilhas de cadáveres e reservar suas críticas para os mais altos. Mas quando Barack Obama se dirigiu à ONU ele nem sequer olhou para a montanha de corpos na Síria. Ele descreveu os crimes de guerra do Estado Islâmico, mas nem uma vez disse que o fascismo religioso foi alimentado pela guerra mais sangrenta que Assad lançou contra a versão síria da Primavera Árabe. "Vamos apoiar os iraquianos e os sírios que combatem para recuperar suas comunidades", gritou Obama. Mas só se eles estiverem lutando para recuperá-las do Estado Islâmico.
Entre 2011, quando manifestantes pacíficos exigiram a derrubada da ditadura do Baath que tiraniza a Síria desde 1963, e abril deste ano, a ONU disse que 191 mil pessoas foram mortas – acrescentando que o número é "provavelmente subestimado". Cerca de 9 milhões de sírios fugiram de suas casas. Para compreender a catástrofe causada pelo regime Assad, é preciso imaginar uma Grã-Bretanha apocalíptica onde toda a população de Londres – e mais um pouco – corre para salvar a vida. Assad lançou ataques de armas químicas nos subúrbios de sua própria capital. A galante força aérea síria despejou bombas incendiárias em pátios de escolas. Muitos milhares de pessoas, incluindo trabalhadores de socorro, advogados e médicos, desapareceram em suas prisões, onde seus carcereiros os espancaram, mutilaram e estupraram.
Obama poderia ter atirado ao regime Assad todas as condenações que atirou contra o Estado Islâmico. Ambos "aterrorizaram todos os que cruzaram seu caminho" na Síria. Ambos submeteram "mães, irmãs e filhas à violação como arma de guerra". Ambos "atiraram em crianças inocentes". Mas enquanto Obama disse que o Estado Islâmico chocou "a consciência do mundo", não conseguiu proferir uma palavra sobre Assad.
Eu admito que a consciência do mundo é tão flexível quanto um iPhone. E já mencionei antes como Obama se dobra ao vento. Mas seu comportamento, e o do Ocidente em geral, continua extraordinário. Vamos à guerra contra um inimigo bárbaro, mas ninguém fala sobre a barbárie que ajudou a criá-lo. O fato de que os ataques aéreos contra os inimigos de Assad deverão aumentar as probabilidades de sobrevivência do ditador não é um assunto adequado para discussão.
Estou tentado a escrever que a disposição de Obama a ajudar criminosos é nixoniana. As autoridades do Oriente Médio já estão examinando os intercâmbios diplomáticos com Teerã e especulando que ele ruma para seu próprio momento Nixon na China. Nadim Shehadi, da Chatham House, diz que Assad deve estar esperando a notícia de que Obama está pronto a permitir que ele domine a Síria e que seus asseclas iranianos dominem o Iraque e o Líbano também. Entretanto, talvez a comparação de Obama com o pior de seus antecessores seja bondosa demais. Nixon e Kissinger fariam qualquer coisa e apoiariam qualquer um que fosse contra a União Soviética. Apesar de todos os seus crimes, eles tinham uma objetividade brutal. Eu me esforço para encontrar algum tipo de coerência na política externa de Obama.
Assad não se importa. Ele sabe que está ganhando, sejam quais forem os motivos do presidente. Ali Haidar, o "ministro da reconciliação nacional", ronronou como a rainha ao ouvir o resultado do referendo escocês quando descreveu os ataques americanos a alvos do Estado Islâmico. "O que aconteceu até agora está procedendo na direção certa em termos de informar o governo sírio e não atingir instalações militares sírias."
Não discuto a necessidade de confrontar o Estado Islâmico. O islamismo militante conduzirá os cristãos e os zoroastrianos para fora do Iraque como já fez com os judeus. Os curdos, que poderiam ser nossos mais verdadeiros amigos na região, poderão sofrer mais massacres. A Grã-Bretanha tem uma responsabilidade moral especial de enfrentar o islã radical, já que nossa sociedade "vibrante" e "diversificada" forneceu ao Estado Islâmico tantos carrascos (ou teria uma responsabilidade moral se nossas forças armadas não tivessem perdido a batalha com George Osborne e ficado sem condições de enfrentar qualquer um).
Mas, assim como o Ocidente não reconhece o direito dos curdos à autodeterminação, também não aceitará que é impossível combater o Estado Islâmico na Síria sem oferecer esperança aos adversários de Assad. Em vez disso, continua propagando a mentira autenticamente orientalista de que os sírios são ou baathistas ou islâmicos radicais, e que não há alternativa à tirania.
Não acredito que essa linha se manterá. Por quanto tempo os países árabes sunitas ficarão na coalizão de Obama quando virem seus inimigos xiitas se beneficiarem? Como os sírios vão reagir ao duplo critério?
É como se todo slogan liberal da última década estivesse voltando para assombrar Obama. Você vai se lembrar de ouvir, ou talvez tenha dito pessoalmente, que deveríamos nos concentrar nas "causas originais" do terrorismo. A causa original do Estado Islâmico é o sectarismo xiita no Iraque e o assassinato em massa sectário na Síria. Mohammed Antabli, um líder dos exilados sírios na Grã-Bretanha, contou-me que levou políticos britânicos e europeus até a fronteira da Turquia com a Síria no início da guerra e os advertiu de que o islamismo floresceria se o Ocidente nada fizesse pela oposição moderada. E foi assim.
Você vai se lembrar de ouvir, ou talvez tenha dito pessoalmente, que não devemos alienar "a rua árabe". Kassem Eid, um ativista da oposição hoje exilado nos EUA, disse que as ruas que restaram na Síria foram alienadas além da conta. O mundo democrático nada fez. Nada de zona de exclusão aérea. Nenhuma tentativa de desacelerar Assad, mesmo por um dia, mesmo quando ele cruzou a "linha vermelha" de Obama sobre armas químicas. Todo ativista sírio com quem falei repetiu sua afirmação de que as hipocrisias ocidentais estão atraindo apoio para o islamismo.
Em seu 1 September, 1939, à véspera de outra guerra, W. H. Auden escreveu: "Eu e o público sabemos/ o que todos os escolares aprendem/ que aqueles contra quem se pratica o mal/ fazem o mal em troca".
Um grande mal foi feito à Síria. Não posso ver como qualquer projeto ocidental contra o Estado Islâmico poderá prosperar até que a "consciência do mundo" ofereça reparação, dizendo que não vai tolerar a continuidade do regime Assad. Neste momento, porém, o mundo nem sequer reconhece a existência do mal. Devemos esperar o mal em troca.

Leia mais em Guardian.co.uk

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Desigualdade de renda no Brasil: os 10% mais ricos e a metade mais pobre.

Entrevista especial com Marcelo Medeiros

Via UNISINOS, na íntegra.
 
“As pessoas acham que o 1% mais rico é formado por milionários, mas isso não é verdade. Os ricos são pessoas que você vê passar na rua todos os dias”, diz o sociólogo.
Foto: jornalggn.com.br
A pesquisa “A estabilidade da desigualdade de renda no Brasil, 2006 a 2012: Estimativa com dados do imposto de renda e pesquisas domiciliares”, que compara os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD com os do Imposto de Renda, demonstra que a desigualdade é 11% maior do que se costumava estimar apenas com base nos dados da PNAD. Por conta desse resultado, será necessário “reavaliar parte do que sabíamos sobre desigualdade no Brasil. Isso não significa que tudo que temos até agora deve ser descartado, e, sim, que algo do que sabemos deve ser repensado. Mas aquilo que achávamos que eram causas importantes da desigualdade talvez venha perder parte de sua importância”, pontua Marcelo Medeiros, um dos autores da pesquisa, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.
De acordo com o professor da Universidade de Brasília – UnB, os dados do Imposto de Renda possibilitam detectar um estrato específico da população brasileira: os mais ricos. Apesar de ainda não ser possível apontar quem são as pessoas mais ricas do país, Medeiros assinala que “pesquisas anteriores estavam baseadas em dados que, sabemos agora com mais segurança, estavam subestimando as rendas dos ricos. O que sabíamos até o momento é que a riqueza não é simplesmente o inverso da pobreza. Aquilo que faz uma pessoa deixar de ser pobre não é o mesmo que faz uma pessoa ser rica, o que aliás é meio óbvio. Mas ainda temos muito que avançar para saber o que faz as pessoas estarem no topo da pirâmide social”.
Num país como o Brasil, em que a renda ainda é bastante concentrada, “o que é muito importante é saber o quanto do nosso crescimento está sendo apropriado por cada grupo da população. Nossos resultados indicam que, quando discutimos o crescimento da economia, falamos de algo que irá ser apropriado, majoritariamente, pelos mais ricos”, enfatiza. Medeiros destaca ainda que o “1% mais rico da população começa ganhando o que hoje seria equivalente a pouco mais de 230 mil reais por ano. O 0,1%, cerca de 140 mil pessoas, a partir de 1 milhão de reais por ano. Estes valores ainda são estimativas iniciais. O topo, em particular, pode estar subestimado”. E acrescenta: “Se alguém ganha mais de 38 mil reais por ano, já pertence aos 10% mais ricos. Pode não parecer muito, mas é bem mais do que ganha a grande maioria da população brasileira. A metade mais pobre da população do Brasil não ganha mais do que 10 mil reais por ano”.
Marcelo Medeiros é graduado em Economia pela Universidade de Brasília – UnB, mestre e doutor em Sociologia pela mesma instituição. Atualmente é pesquisador do Ipea e professor na UnB. Além disso, leciona anualmente na UNSAM - Buenos Aires. Foi pesquisador no International Poverty Centre - UNDP, pesquisador-visitante no CSC - Cambridge University, no Institute for Human Development - Delhi, no Indira Ghandi Institute - Mumbai, na Sophia University - Tóquio, no CNRS-Cermes3 - Paris e na University of California - Berkeley, além de especialista em avaliação de políticas do TCU.

Confira a entrevista.

Foto: igepp.com.br
IHU On-Line - O senhor diz que a desigualdade brasileira é mais alta do que se imaginava. Qual era a estimativa acerca da desigualdade antes de realizar o estudo “A estabilidade da desigualdade de renda no Brasil, 2006 a 2012: Estimativa com dados do Imposto de Renda e pesquisas domiciliares” e qual foi o resultado verificado após a pesquisa?

Marcelo Medeiros - Com o uso de dados do Imposto de Renda observamos que a desigualdade é cerca de 11% maior do que costumávamos estimar com as PNAD.

IHU On-Line - Quais são os aspectos determinantes da desigualdade social no Brasil?

Marcelo Medeiros - Por causa de nossos resultados, agora teremos que reavaliar parte do que sabíamos sobre desigualdade no Brasil. Isso não significa que tudo que temos até agora deve ser descartado, e, sim, que algo do que sabemos deve ser repensado. Eu realmente não tenho a resposta. Mas aquilo que achávamos que eram causas importantes da desigualdade talvez venha perder parte de sua importância.

IHU On-Line - Quais são as principais divergências no que se refere aos dados do Imposto de Renda e às pesquisas domiciliares em relação às desigualdades? Por que o coeficiente de Gini da desigualdade de renda entre os adultos medida com o Imposto de Renda é 11% maior do que aquela que medíamos nas PNAD?

Marcelo Medeiros - A PNAD é uma pesquisa de excelente qualidade. Os Censos também. Em todo o mundo, pesquisas como a PNAD e os Censos têm dificuldade em captar adequadamente a renda das pessoas mais ricas. Dados do Imposto de Renda captam essas rendas de modo mais preciso. Essa é a principal razão das diferenças. Mas a PNAD e os Censos continuarão sendo nossa principal fonte de informação social por muito tempo, inclusive levantando dados que o Imposto de Renda não levanta muito bem. O IBGE é uma instituição altamente profissional e seus resultados são de ótima qualidade. Nós podemos contar com a PNAD e os Censos como boa fonte de informação social no país.

IHU On-Line - Quem são os mais ricos do Brasil e quais são os fatores que determinam a riqueza?

Marcelo Medeiros - Infelizmente ainda não conseguimos dizer. Nossas pesquisas anteriores estavam baseadas em dados que, sabemos agora com mais segurança, estavam subestimando as rendas dos ricos. O que sabíamos até o momento é que a riqueza não é simplesmente o inverso da pobreza. Aquilo que faz uma pessoa deixar de ser pobre não é o mesmo que faz uma pessoa ser rica, o que aliás é meio óbvio. Mas ainda temos muito que avançar para saber o que faz as pessoas estarem no topo da pirâmide social.

“O Estado contribui para uma parte relevante da desigualdade no país”

IHU On-Line - O senhor chama atenção para a desigualdade a partir de um estrato da população: os mais ricos. É possível estimar quais são as razões que contribuem para que um grupo de 1% mais rico da população se aproprie de 28% de todo o crescimento, como ocorreu entre 2006 e 2012?
 
Marcelo Medeiros - Isso acontece quando a renda é muito concentrada. O que é muito importante é saber o quanto do nosso crescimento está sendo apropriado por cada grupo da população. Nossos resultados indicam que, quando discutimos o crescimento da economia, falamos de algo que irá ser apropriado, majoritariamente, pelos mais ricos.

IHU On-Line - O senhor também informa que se alguém ganha mais de 38 mil reais por ano, já pertence ao grupo dos 10% mais ricos. A partir desse dado, é possível estimar qual é a diferença da renda entre os mais ricos e os mais pobres, e entre os mais ricos e a média da população?

Marcelo Medeiros - Em 2012 o 1% mais rico da população começa ganhando o que hoje seria equivalente a pouco mais de 230 mil reais por ano. O 0,1%, cerca de 140 mil pessoas, a partir de 1 milhão de reais por ano. Estes valores ainda são estimativas iniciais. O topo, em particular, pode estar subestimado. As pessoas acham que o 1% mais rico é formado por milionários, mas isso não é verdade. Os ricos são pessoas que você vê passar na rua todos os dias.
Se alguém ganha mais de 38 mil reais por ano, já pertence aos 10% mais ricos. Pode não parecer muito, mas é bem mais do que ganha a grande maioria da população brasileira. A metade mais pobre da população do Brasil não ganha mais do que 10 mil reais por ano.

IHU On-Line - Em que medida os fluxos de renda de e para o Estado afetam a distribuição de renda no Brasil?

Marcelo Medeiros - As rendas que vêm do Estado chegam a vários grupos da população. Os mais ricos recebem mais recursos que os mais pobres. O Estado contribui para uma parte relevante da desigualdade no país. Mas é importante entender que isso não é necessariamente ruim. Se o Estado melhora o sistema de saúde e contrata mais enfermeiras e médicas, ele passa a pagar salários para pessoas que estão na metade de cima da distribuição de renda. Isso contribui para a desigualdade, mas nem por isso melhorar a saúde contratando mais enfermeiras e médicas é uma má notícia. Olhar só para a desigualdade de renda é pouco, temos que prestar atenção nas causas da desigualdade e também no conjunto de outras coisas que fazem as pessoas viverem bem.

IHU On-Line - Como avalia as políticas públicas que propõem a redução das desigualdades através da distribuição de renda?

Marcelo Medeiros - Elas são muito importantes. Tanto as políticas que pretendem tornar nossos impostos mais justos quanto as políticas que focam nas causas da desigualdade no longo prazo.

“A desigualdade não é um problema que vai ser resolvido com um conjunto restrito de políticas”

IHU On-Line - Que medidas ainda são necessárias para diminuir as desigualdades?

Marcelo Medeiros - Não existe uma solução simples para um problema dessa magnitude. Buscar uma fórmula mágica para resolver o problema da desigualdade é o mesmo que buscar uma maneira simples de fazer a economia de um país crescer rapidamente e sustentar esse crescimento: provavelmente não dará resultado.
A desigualdade não é um problema que vai ser resolvido com um conjunto restrito de políticas. Sequer é um problema simples de ser enfrentado. Ela é uma meta de longo prazo e sua solução passa por enfrentar grandes conflitos de interesse. Combater a desigualdade é mais difícil e politicamente delicado do que acabar com a fome ou a pobreza.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Livro recupera história de nove chineses presos pela ditadura brasileira em 1964

Na íntegra, via UNISINOS.
 




"Contava-me o Dr. Sobral que todos os passos e atividades do grupo eram permanentemente vigiados pela polícia política. Nada disso impediu que fossem presos três dias após o golpe de 1964. A polícia política conduziu-os ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), onde foram torturados, fichados e interrogados", escreve Eny Moreira, advogada, integrante da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, presidente-fundadora do Comitê Brasileiro para Anistia e idealizadora do livro “Brasil: Nunca Mais”, em artigo publicado pelo jornal O Globo, 27-09-2014.


Eis o artigo.

O recém-lançado “O caso dos nove chineses”, livro escrito por Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo, joga luz sobre o primeiro escândalo internacional praticado pela polícia política da ditadura civil militar, instaurada no Brasil em 1964: a prisão de nove chineses — jornalistas e altos funcionários integrantes da Missão Comercial Chinesa, que aqui estavam, desde 1961, a convite do presidente Jânio Quadros. A finalidade da missão era propiciar substancial expansão do comércio internacional do Brasil com a República Popular da China.
Durante os 15 anos em que fui assistente do Dr. Sobral Pinto, por reiteradas vezes ouvi-o contar detalhes desse caso. Ele fez a defesa dos nove chineses perante a Justiça Militar. Lembro-me perfeitamente de incidentes preciosos desta história, como por exemplo, o fato de o ministro das Relações Exteriores, Afonso Arinos de Melo Franco, haver, no dia 21 de agosto de 1961, transmitido em carta ao vice-presidente João Goulart, a notícia de que Jânio resolvera constituir a “Missão João Goulart”. O objetivo era dar prosseguimento às conversas iniciadas com uma missão chinesa que visitara o Brasil em maio daquele mesmo ano.
Entre os compromissos assumidos em Pequim por João Goulart, figurava a autorização para o estabelecimento no Brasil de uma representação comercial permanente da China, bem como a realização em nosso país de uma exposição comercial e industrial. Ambas as concessões foram feitas em termos de reciprocidade. Por conta deste acordo, aqui desembarcaram, entre dezembro de 1961 e janeiro de 1964, Wang Weizhen, Ju Qingdong, Wang Zhi, Wang Yaoting, Hou Fazeng, Song Guibao, Zhang Baosheng, Ma Yaozeng e Su Ziping. Eles se encontravam em território brasileiro legalmente, com vistos oficiais fornecidos pelo Itamaraty.
Contava-me o Dr. Sobral que todos os passos e atividades do grupo eram permanentemente vigiados pela polícia política. Nada disso impediu que fossem presos três dias após o golpe de 1964. A polícia política conduziu-os ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), onde foram torturados, fichados e interrogados.
Com os chineses, foi apreendido o equivalente a 120 milhões de cruzeiros em moedas estrangeiras — até hoje depositados no Banco do Brasil — e vários bens e objetos domésticos. Foi feita uma perícia em documentos escritos à mão e em língua chinesa, o que resultou num laudo com tradução falsa daqueles papéis. O advogado Sobral Pinto conseguiu a nomeação de um tradutor de confiança e comprovou a farsa: o que os militares chamavam de “diário de atividades subversivas”, eram agendas nas quais os chineses anotavam os compromissos de trabalho, tais como reuniões em órgãos ou autoridades públicas brasileiras, com o objetivo de efetivar negociações sobre as possibilidades de intercâmbio comercial entre os dois países.
Apesar de tudo isso, foram acusados de serem “agentes e espiões do comunismo internacional”, e de terem ingressado no território brasileiro para subverter a ordem política e social estabelecida na Constituição de 1946, visando a instaurar aqui um regime comunista de inspiração chinesa.
Esquecido no Brasil, caso ainda é lembrado na China
A defesa produzida pelo Dr. Sobral Pinto, junto ao Superior Tribunal Militar (STM), provou que a prisão e julgamento dos chineses foram o pretexto usado pelos militares para demonstrar que o presidente João Goulart era comunista e, por isso, havia sido deposto. Até hoje os chineses continuam condenados a 10 anos de prisão e, no plano legal, expulsos do Brasil. Nunca o dinheiro apreendido foi devolvido ao governo da China.
Há poucas semanas, integrantes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) colheram, informalmente, o depoimento do advogado Danillo Santos, um dos poucos personagens ainda vivos desta história. Santos foi contratado pelos chineses para cuidar da classificação e liberação, pela então Carteira de Comércio Exterior (Cacex) do Banco do Brasil, de mais de 5 mil produtos que eles pretendiam mostrar na exposição comercial, a ser realizada em Niterói. Foi Santos também quem convenceu o Dr. Sobral Pinto a aceitar a defesa dos chineses.
A CNV encerrará seus trabalhos em dezembro, quando entregará à presidente Dilma Rousseff um relatório final com todas as investigações realizadas em dois anos e sete meses de atividades. No relatório, estarão novos dados sobre casos já conhecidos do grande público, como o atentado a bomba do Riocentro e o assassinato do deputado Rubens Paiva. Ao lado deles, não poderá faltar uma análise detida sobre o caso dos chineses.
Cinquenta anos depois, esse escândalo, que ainda nos envergonha, merece uma reparação. Para o bem da harmoniosa convivência entre Brasil e China — duas nações que se autoproclamam “parceiros estratégicos” —, é preciso restabelecer a crença na total inocência dos nove cidadãos chineses. E, quem sabe, provocar o Estado brasileiro a anular a absurda condenação, revogando, também, o decreto que os expulsou.
Se no Brasil esquecemos desses fatos, na China eles continuam vivos na memória do governo e de seu povo.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Agricultura Irrigada

Tomislav R. Femenick, Mestre em Economia, pela PUC-SP , jornalista e bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Cidade de São Paulo. 


Captar, controlar e distribuir a água com o uso de canais cavados na terra, calhas feitas de bambu ou de barro cozido, túneis, comportas de pedra, aquedutos e noras (rodas de giro vertical à qual eram presos vasos que levam a água do nível inferior ao superior), ou seja, irrigar as terras agrícolas é costume que remonta às primeiras civilizações que se tem notícia. Foi hábito na Mesopotâmia, no Egito, na China, no sudeste asiático, dos povos mediterrâneos, da meso-América, da África subsaariana e dos Andes sul americanos, entre outros. Esse sistema garantiu a sobrevivência de nações que deixaram marcas na história da humanidade. Pode-se dizer que a irrigação das lavouras foi uma dos primeiros atos econômicos da humanidade. No entanto sempre foi se não desconhecida, porém pouco praticada no nordeste brasileiro, até a primeira metade do século passado. 
O historiador Raimundo Nonato tinha verdadeiro respeito pelo espírito empreendedor de José Rodrigues de Lima; industrial, comerciante, agricultor, pecuarista, salineiro, um dos fundadores do Banco de Mossoró e da Cooperativa dos Salineiros Norte Rio-grandense, dono de empresa de navegação, construtor e proprietário de imóveis. O que o professor Raimundo Nonato admirava era a capacidade que o meu avó tinha para descobrir o valor potencial de certas atividades produtivas.  
No final dos anos 1930, José Rodrigues comprou cataventos novos para a sua salina e ficou com quatro sucatas sem valor de venda. Então procurou uso para os cataventos velhos. Levou os equipamentos uma das suas fazendas, localizada nas Barrocas, depois da Barragem de Baixo. Ali fez uma das suas experiências, uma das primeiras de cultura irrigada do vale do Rio Mossoró: instalando-os em série contínua e, levando a água para a região mais alta do terreno, conseguiu irrigar suas plantações de banana, mamão, laranja, cenoura, abacaxi, girassol etc., usando a queda natural que acompanhava a descida de nível. Usar catavento na agricultura não era novidade. Novo era o método. Essa sua experiência foi repassada para diversas outras pessoas, inclusive ao ex-governador Dix-sept Rosado, que a usou em seu sitio. 
Outro grande inovador no processo de irrigação da agricultura no oeste foi o bispo Dom Eliseu Simões Mendes, o terceiro ocupante da diocese de Mossoró. No começo dos anos 1950, através do seu trabalho social junto às populações rurais dos vales dos rios Mossoró e Assú, Dom Eliseu – com ajuda do governo federal – implantou um programa de irrigação com o uso de motobombas movidas a motor diesel, visando produzir alimento para sustento dos pequenos agricultores, bem como excedentes para venda no mercado. Muito embora o sistema de captação de água tenha substituído os cataventos pelas motobomba, o principio de distribuição da água continuou o mesmo utilizado por José Rodrigues. Aliás, presenciei varias reuniões entre eles e o Padre Mota; este último vigário geral da Diocese, ex-prefeito e cunhado do meu avô. 
Outro grande avanço da irrigação do semiárido potiguar deu-se no período de expansão da empresa Maisa, quando esta abandonou sua ideia inicial de cultivo de algaroba e passou a plantar frutas. Vários aspectos diferenciaram esse projeto dos anteriores. Entre eles a sua localização, na chapada do Apodi, longe de curso de água normal e, por isso, dependente de poços artesianos, bem como o sistema de distribuição de água com uso de pivôs rotativos. 
Os pioneiros estavam no caminho certo. Segundo dados do IBGE, até agosto deste ano 59,75% da produção agrícola do Rio Grande do Norte veio da região oeste. O resto do Estado (incluindo o agreste e o leste potiguar) ficou somente com 40,25%.