Sobre o grupo

Grupo de Estudos formado por docentes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e outras instituições, voltado para a pesquisa, análise e compreensão dos fenômenos ligados ao desenvolvimento socioeconômico e a criminalidade e violência. O Grupo é liderado pelos docentes Ângelo Magalhães Silva e Thadeu de Sousa Brandão.

Contato, críticas, sugestões e artigos: gedeviolência@gmail.com

Blog de divulgação e vulgarização científica, criado em 22 de Outubro de 2012.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Novo governo, velhos problemas

Tomislav R. Femenick, Mestre em Economia, pela PUC-SP , jornalista e bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Cidade de São Paulo.


O próximo presidente da República, ele ou ela, terá muitos, imensuráveis, problemas pela frente. Convenhamos, não é fácil administrar um país com tantas diversidades como o nosso. Somos complicados, como complicados são os países com extensão que mais parecem continentes. A nossa terra tem regiões com características totalmente diferentes. A exuberância da floresta amazônica contrasta com o raquitismo da caatinga nordestina; as noites frias do inverno de Santa Catarina e das serras gaúchas são um contraponto para o calor escaldante de Cuiabá e do Piauí, no período de verão; às vezes temos, ao mesmo tempo, seca no Nordeste e em São Paulo e enchentes no Norte e Centro Oeste.
Se assim é nossa geografia, mais complicada ainda é nossa composição como nação. Tomemos como exemplos o matuto nordestino e o caipira mineiro ou paulista. Ambos têm em comum o viver no campo, a pouca instrução, o recato social e a desconfiança para com os moradores das cidades. No entanto suas personalidades, se analisadas de perto, evidenciam mais diferenças que igualdade. O matuto é mais extrovertido, canta emboladas, dança maracatu e se comunica pela poesia dos cordéis. O caipira é reservado, introvertido e só se faz ver pela música cantada em duplas.
É… não é tarefa para principiantes governar toda essa terra e toda essa gente.
Não bastassem os problemas naturais – a formação da terra e do povo brasileiros –, há o descontrole dos atos governamentais que criam entraves ao desenvolvimento. A agricultura produz alimentos e grãos, mas não tem como escoar sua produção. Faltam estradas, trens e portos, que são poucos. A indústria sofre com esse mesmo caos viário, com a concorrência dos importados subsidiados em seus países de origem, os tributos em cascata, as altas taxas de juros, a burocracia estafante, o desinteresse dos burocratas e a enxurrada regulatória que cria jabuticabas artificiais (coisas que só existem no Brasil): a tomada de três pinos, a cópia autenticada e o reconhecimento de firma.
Nas bastasse tudo isso, vivemos o ressurgimento da inflação, que corroí os salários e o valor das mercadorias se não reajustadas; resultado, alta dos preços. Nesse cenário é difícil produzir, crescer e fazer o desenvolvimento.
Todas essas excentricidades e a excessiva interferência governamental têm reflexo direto na economia e geram os “pibinhos” ridículos e ameaça de déficit na balança comercial, com reflexo na balança de pagamento. Temos, ainda, gargalos fiscais, tributários, creditícios, fundiários, comerciais, tecnológicos, trabalhistas, previdenciários, financeiros, ambientais e organizacionais, ente outros.
O futuro presidente – o novo ou a que continuará, não importa quem – terá que enfrentar tudo isso e mais o inevitável reajuste dos preços dos derivados de petróleo, da energia elétrica, das matérias-primas e dos produtos de consumo importados, o que afetará o poder de compra dos trabalhadores e da classe média.
Junte-se a isso a imobilidade dos governos de todos os níveis. Obras se iniciam e param. Em todo o país há centenas de esqueletos de hospitais cujas construções foram paralisadas. As obras de ferrovias, de portos, da transposição do Rio São Francisco, das refinarias de petróleo, anunciadas com estardalhaço, andam com passos de cágados ou foram abandonadas; muitas nem saíram do papel. O ressurgimento da indústria naval foi abortado, a indústria automobilística dá férias coletivas, lança mão de “bancos de horas”; no geral o setor já desempregou milhares de operários. No campo há as invasões, as frustrações de safra, a evasão de mão de obra, os altos custos dos fertilizantes e dos defensivos.
Essa será a herança que receberá o novo governante dos brasileiros.

Que Dilma vem aí?

Glauco Peres da Silva, Economista, formado pela USP, tem doutorado em Administração Pública e Governo pela FGV-SP, com estágio doutoral no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi coordenador de graduação dos cursos de Economia e Relações Internacionais da FECAP por sete anos. Atualmente, é professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo.



Terminada a apuração da eleição mais apertada da história recente do Brasil, Dilma Rousseff é reconduzida ao Palácio do Planalto com pouco mais de 51% dos votos válidos. Seu primeiro discurso como presidente reeleita menciona a abertura ao diálogo e a promoção de mudanças.  Porém, seu perfil não mostrou ser este ao longo destes quatro anos. É emblemático deste comportamento, em seu discurso não mencionar o candidato da oposição, Aécio Neves. Qual o diálogo que pensa ela fazer ou com quem dialogará? Mas em termos práticos, conhecida por ser bastante centralizadora e com pouca paciência, a presidente Dilma terá uma dificuldade importante com a qual lidar ao longo deste seu próximo mandato: a minoria derrotada é muito grande. Qual sinal ela entenderá deste resultado das urnas?
 “Qual o diálogo que pensa ela fazer ou com quem dialogará?”
Em um extremo, ela pode entender que recebeu um apoio ao governo que implementou até aqui. Neste sentido, seu segundo mandato seria uma continuidade do que fez até agora: reforçaria as políticas sociais e pautaria a economia por uma clara intervenção do Estado, com a preocupação em manter elevado o salário mínimo e o emprego. Em outro extremo, ela pode entender que nesta eleição ela quase perdeu mais do que ganhou, o que é um forte sinal de que sua gestão é reprovada por parcela expressiva da população e, a partir daí, tomar um caminho que a aproxime mais dos governos Lula do que de seu próprio mandato. Estas são situações extremas. O mais certo é encontrarmos um governo que esteja em um ponto intermediário, tendendo para um dos lados. Mas qual lado?
“Em um extremo, ela pode entender que recebeu um apoio ao governo que implementou até aqui. (…)Em outro extremo, ela pode entender que nesta eleição ela quase perdeu mais do que ganhou (…)”
É difícil dizer, evidentemente. Como foi dito, o perfil da presidente não é o de disposição ao diálogo. Já pelo seu primeiro discurso, a sinalização quanto à necessidade de diálogo é um sinal importante. As medidas econômicas necessárias que serão de forte ajuste podem ser um bom indicativo desta sua disposição. Ela precisa, por exemplo, se aproximar do empresariado, que certamente lhe fez oposição ao longo desta campanha. Este é um diálogo que ela precisa travar. Paro por aqui porque enumerar os focos com quem dialogar seria extenso. Apenas cito um outro que lhe é muito caro.
“(…)o perfil da presidente não é o de disposição ao diálogo.”
A transferência de renda no Brasil não se trata apenas de ser entre ricos e pobres, mas é também regional. Os mais pobres, aqueles que se beneficiam de boa parte dos programas do governo federal, não estão nos estados mais ricos da federação. Isto implica em um duplo movimento que acentua uma cisão, ao menos nos discursos, latentes desde a Revolução de 1932 no Brasil, que é a dependência do país ao desempenho econômico do Sudeste, notadamente de São Paulo. Estabelecer o diálogo, portanto, passa por evitar que um preconceito, inclusive, e uma indisposição federativa paute as disputas políticas no Brasil, como de certa forma já ocorrem após várias eleições nacionais no Brasil.
“A transferência de renda no Brasil não se trata apenas de ser entre ricos e pobres, mas é também regional.(…).Estabelecer o diálogo, portanto, passa por evitar que um preconceito, inclusive, e uma indisposição federativa paute as disputas políticas no Brasil, como de certa forma já ocorrem após várias eleições nacionais no Brasil.”
A disposição em conversar é um gesto muito importante. Dilma deu esse sinal. Porém, ele não é suficiente. Seu governo precisará neste sentido ser bastante diferente do que foi para não acirrar imagens indesejadas por ninguém que minimamente se preocupe com o ambiente político e a qualidade da democracia no país.
“A disposição em conversar é um gesto muito importante. Dilma deu esse sinal. Porém, ele não é suficiente.”

Na íntegra, via Entrementes.

"Lulismo recupera certo fôlego para projetar governo com marca própria". Entrevista especial com Bruno Lima Rocha

Na íntegra, via UNISINOS.

"Lula foi o grande cabo eleitoral de Dilma neste pleito e isso pode ser posto, em parte, na conta do lulismo", constata o cientista político e jornalista.
"Dilma venceu na comparação dos governos do lulismo diante da Era FHC; ganhou na autoestima dos brasileiros (identificação das camadas populares); no cálculo racional da real possibilidade de piora das condições materiais de vida; e, por fim, na rejeição a Aécio Neves e ao personagem que, vindo da oligarquia mineira, promoveria um 'novo' país com as velhas elites de sempre", afirma Bruno Lima Rocha, em entrevista concedida por e-mail na madrugada de hoje, dia 27 de outubro.
Segundo ele, "o Brasil que emergiu na luta contra o aumento das passagens e a vitória pontual em algumas importantes cidades não se identifica com o jogo da eleição indireta e pode voltar a se apresentar na arena política em 2015. Dilma terá momentos difíceis até pela delicada situação da CPI da Petrobras e as manobras político-midiáticas verificadas neste ano. Entendo que poderemos ter um ano ímpar – logo, não eleitoral – bastante intenso e com espaço para aglutinação das forças de esquerda, tanto as eleitorais como as de tipo libertário, para aumentar o espaço de incidência real na base da sociedade brasileira".
Bruno Lima Rocha possui graduação em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e mestrado e doutorado em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Atualmente, leciona nos cursos de Relações Internacionais, Ciência Política e Jornalismo na Unifin, na ESPM-Sul e na Unisinos.

Confira a entrevista.
IHU On-Line - Como avalia o resultado do segundo turno das eleições, com a disputa tão apertada? É possível identificar a causa de o país estar dividido?
Bruno Lima Rocha - Sim, entendo que as causas desta divisão são perceptíveis. O Brasil promoveu a mobilidade social, e esta camada ascendente (da pobreza para a classe média) não traz consigo valores de câmbio e muito menos de identificação popular. Uma das formas clássicas de domínio é a reprodução de valores e identificações da camada superior da sociedade como sendo um valor universal.
O país se divide na reprodução de valores com certa ideologia da superação, do valor-mercado, contra a intervenção e promoção do Estado na economia e na organização social. Só conseguimos entender a rejeição ao PT se compreendermos a condição dependente e alinhada ao Ocidente das elites brasileiras, em especial do andar de cima de São Paulo.
O conflito se dá porque há  um medo desta elite em operar uma espécie de “venezualização” do Brasil. Isso é absurdo em termos de possibilidade, mas as ideias são concretas para os que as recebem e reproduzem. Esta mesma elite se serve do Estado e, através desta intervenção, é possível a expansão do capitalismo no Brasil. Ainda assim a rejeição ao projeto de centro-esquerda é enorme.
IHU On-Line - A que atribui a vitória de Dilma no segundo turno? Em que circunstâncias políticas Dilma foi reeleita? Quem são os eleitores de Dilma?
Bruno Lima Rocha - Dilma ganhou com uma massa de votos no nordeste e venceu com margens razoáveis no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Os eleitores de Dilma, em sua maioria, são os mais identificados com o lulismo e o que restara de esquerda no apelo do PT.
Posso afirmar que Dilma venceu na comparação dos governos do lulismo diante da Era FHC; ganhou na autoestima dos brasileiros (identificação das camadas populares); no cálculo racional da real possibilidade de piora das condições materiais de vida; e, por fim, na rejeição a Aécio Neves e ao personagem que, vindo da oligarquia mineira, promoveria um “novo” país com as velhas elites de sempre.
O Armínio Fraga ajudou na eleição de Dilma também.
IHU On-Line - Como explicar a reeleição um ano depois de o país sair para as ruas com as manifestações, e com tantas críticas feitas ao governo por conta dos gastos da Copa, da construção de hidrelétricas, da parceria do Estado com as empreiteiras, da agenda ambiental, do leilão dos poços de petróleo, do péssimo desempenho da economia, da política indigenista?
Bruno Lima Rocha - O país que foi aos protestos não se identifica com a crítica feita pela direita ao governo. Na Espanha ocorreu o mesmo. O Estado Espanhol viu-se diante do movimento dos indignados e nas eleições posteriores acabou elegendo o PP (direita política), como um voto de castigo ao PSOE (social-democrata e que impôs o pensionazo e retirada de direitos dos assalariados).
Entendo que os brasileiros que aderiram aos protestos se engajariam mais em campanhas de tipo democracia direta, definindo de forma plebiscitária a temas estruturais da sociedade brasileira e não aderindo ao candidato A, B ou C, ainda mais se levarmos em conta que a esquerda eleitoral é diminuta no país.
Lembro que no primeiro turno a segunda colocação não foi de Aécio, e sim a soma de nulos, brancos ou abstenções. Não podemos confundir as manifestações e protestos de 2013 com a tentativa de sequestro da pauta, operada tanto pela direita como pela direita midiática, fato que ocorrera e hoje é um consenso para quem estuda o tema. Seria impensável supor que aqueles e aquelas que lutaram contra o aumento das passagens elegessem um tucano como voto de castigo ao PT e o abandono da esquerda.
IHU On-Line - Como avalia os votos de Aécio em Minas Gerais? A que atribui o fato de ele ter perdido no seu estado base?
Bruno Lima Rocha - Pimenta da Veiga foi uma péssima escolha do PSDB mineiro. Em compensação, o ex-governador tucano Antônio Anastasia foi eleito para o Senado. E, ao mesmo tempo, Fernando Pimentel (PT) foi eleito no primeiro turno. Só posso inferir que não há a mesma rejeição dos eleitores tucanos e petistas em Minas e, também, que há certa rejeição do legado do PSDB em Minas.
IHU On-Line - Qual é o papel de Lula e do lulismo nessa reeleição?
Bruno Lima Rocha - Lula foi o grande cabo eleitoral de Dilma neste pleito e isso pode ser posto, em parte, na conta do lulismo. Só o lulismo, que segundo uma definição mínima seria o pacto conservador com reformas sociais graduais, já não foi o bastante para derrotar os neoliberais. Logo, Lula como cabo eleitoral entrou em cena, mas vinculando e mobilizando a máquina e a militância (mesmo que sazonal) do PT. O lulismo gera a identificação e, ao mesmo tempo, aumenta o medo da perda dos direitos e condições materiais de vida adquiridas. Foi este lulismo pulverizado que garantiu a vitória da herdeira política de Lula.
IHU On-Line - Qual o significado da reeleição de Dilma para a esquerda e para a ex-esquerda?
Bruno Lima Rocha - Para a ex-esquerda, ou seja, o próprio PT e o que lhe resta de aliados, como PC do B e o possível racha do PSB, foi a sua salvaguarda. O PT hoje é um partido que tem muita dificuldade em existir fora da máquina pública e ganha o fôlego necessário para, caso consiga a coesão necessária, promover ou tentar impulsionar a reforma política.
Já para a esquerda por um lado é um alívio, pois não fica na conta de junho de 2013 a quase derrota do lulismo para os neoliberais. E, por outro, é uma urgência, pois implica que a esquerda – eleitoral e não-eleitoral – precisa encontrar formas de operar nas políticas da sociedade brasileira. Daí a urgência da reforma política, desde que este projeto tenha elementos de democracia direta.
IHU On-Line - Qual deve ser a agenda do movimento popular no Brasil daqui para frente?
Bruno Lima Rocha - A que eu citei acima vale para os movimentos populares. É preciso remontar uma central sindical combativa, totalmente distante dos postos e cargos no governo federal. O mesmo vale para demais setores do movimento popular; os convênios e o trânsito entre militantes e quadros de governo contaminaram a condição de luta dos movimentos. O movimento popular deveria montar uma instância de coordenação e garantir uma pauta de emergência para não deixar a direita – que também é governo – tomar sozinha a dianteira da política nacional. Uma bandeira urgente é não permitir que o Congresso possa definir terras indígenas e quilombolas.
IHU On-Line - Qual será a repercussão e o impacto da eleição presidencial na América Latina? Qual é a influência do resultado para a esquerda latino-americana?
Bruno Lima Rocha - São dois temas distintos. O projeto de poder do lulismo implica em acertadas relações diplomáticas, dando ênfase ao Mercosul, para as relações Sul-Sul e a projeção estratégica do Brasil na África. Assim, a vitória da situação no Brasil favorece os países do Continente e enfraquece a projeção dos EUA para a América Latina através da Aliança do Pacífico.
Já para a esquerda latino-americana pode ser uma miríade. Isto porque o PT é um partido social-democrata e que governa pelo centro e ao lado de oligarquias terríveis. Logo, para a esquerda latino-americana pode apontar como saudável um caminho eleitoral e com gestões não classistas. Pode gerar mais crise e perda de poder de pressão em agrupações políticas mais aguerridas, ainda que eleitorais.
IHU On-Line - O que é possível vislumbrar com mais quatro anos de PT no governo federal, somando 16 anos de governança? O que o PT ainda não fez nos últimos 12 e deve fazer nos próximos 4?
Bruno Lima Rocha - É mais fácil afirmar o que não fará, a exemplo da reforma agrária (que não vai sair) e da reforma urbana, com os 8 milhões de déficits de moradia e que seguramente também não vai sair. O PT vai se voltar para um avanço na infraestrutura do país e aumentar a modalidade das PPPs e concessões.
Como o partido de governo não vai mexer na sangria no orçamento da União, que ocorre através da rolagem da dívida (cerca de 42% dos recursos) e da DRU (outros 20% da receita), dificilmente teremos políticas ainda mais distributivas. Nenhuma grande conquista social virá do Estado, e qualquer pauta que venha a ser conquistada será apesar do governo de coalizão. Como realizações de Estado ainda não realizadas estão as reformas política e tributária.
Os demais temas urgentes e que vêm da base da sociedade, como o fim do fator previdenciário, a regulação do Capítulo 5 da Constituição Federal (da comunicação  social), só virão caso a reforma política (se esta ocorrer) trouxer elementos de democracia direta em seu texto final.
IHU On-Line - A que atribui a vitória de Sartori no Rio Grande do Sul? Qual é o significado político desta eleição no RS?
Bruno Lima Rocha - Sartori optou por uma estratégia de campanha onde o antipetismo foi o grande vitorioso. Ao mesmo tempo, conseguiu bloquear o debate político impedindo qualquer racionalidade na comparação entre governos. O PT deixou de ter mais chances de vitória justamente por não ter repactuado a dívida do estado para com a União.
Esta agenda a ser votada em novembro é o exemplo de como a estrutura do país, onde o poder central concentra quase ¾ dos recursos tributários, beneficia o governo federal de turno e subordina os níveis de governo subnacionais, em especial os estados. Sartori revela uma acomodação de forças políticas no estado, a presença do agente econômico estadual – diretamente representado pelo vice José Paulo Cairoli –, o limite do  teto do PT no Rio Grande do Sul.
IHU On-Line - Qual é o significado político da reeleição presidencial?
Bruno Lima Rocha - Entendo que houve uma mobilização de tipo voto útil, para que os brasileiros não retrocedessem nas condições materiais de vida. Também implica em maioria apertada e o fortalecimento da oposição neoliberal. Por fim, dá certo fôlego ao lulismo para projetar um governo com marca própria apesar de seu campo de alianças.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
Bruno Lima Rocha - Sim, e vai ao encontro de junho de 2013. O Brasil que emergiu na luta contra o aumento das passagens e a vitória pontual em algumas importantes cidades não se identifica com o jogo da eleição indireta e pode voltar a se apresentar na arena política em 2015. Dilma terá momentos difíceis, até pela delicada situação da CPI da Petrobras e as manobras político-midiáticas verificadas neste ano. Entendo que poderemos ter um ano ímpar – logo, não eleitoral – bastante intenso e com espaço para aglutinação das forças de esquerda, tanto as eleitorais como as de tipo libertário, para aumentar o espaço de incidência real na base da sociedade brasileira. E, urgentemente, chamo a atenção para as causas dos povos indígenas e quilombolas e as ameaças evidentes a estes direitos ancestrais com base nas reparações.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

GEDEV no II SIDACS

Segue a participação do GEDEV neste II SIDACS. Participe você também!


O que a campanha eleitoral revela e esconde

Na íntegra, via UNISINOS.

Temos um enorme bem comum mundial a gerir, um dos maiores territórios cidadãos do planeta, com fantástica biodiversidade, água e minerais. Neste sentido, a pergunta que, como brasileiros e brasileiras, não podemos postergar é ‘Que Brasil o Mundo Precisa?’. Será que estamos assumindo a nossa responsabilidade na construção de ‘outro mundo’”? O comentário é de Candido Grybowski em artigo  no Canal Ibase, 22-10-2014.


Eis o artigo.

Estamos tomados por uma acirrada disputa pela Presidência da República. O processo da campanha eleitoral levou à formação de dois grandes blocos em torno a Dilma e Aécio, numa combinação de elementos partidários, ideológicos, programáticos e, sobretudo, sociais e geopolíticos. É uma polarização muito contraditória, de coalizões pouco orgânicas no sentido de ideário mobilizador e projeto de sociedade em disputa. Reflete mais um país desigual, com processos diferenciados de emergência política de suas estruturas sociais, locais e regionais, do que a constituição de forças no seio da sociedade civil com poder de disputar hegemonia no sentido pleno da palavra. A polarização da disputa se deu mais pelas ameaças e possibilidades que sente a cidadania, das conversas no cotidiano e da propagação difusa na sociedade, do que por influência dos debates na televisão e da campanha eleitoral na mídia.
Um primeiro aspecto a destacar nesta situação é o quanto a emergência de tal polarização pode fazer bem à democracia no Brasil. Afinal, é o país real que configurou isto, mais do que os partidos e os políticos. A polarização revela vitalidade, que pode levar a uma nova onda de democratização. Mas, ao mesmo tempo, precisamos considerar o fato que uma importante franja, algo em torno a 20% da cidadania, não se sente espelhada em tal polarização e pode não votar ou anular o seu voto, mas é um conjunto importante politicamente no debate de nosso futuro e dos caminhos a construir. Enfim, está dada uma agenda para a reanimação e revitalização da democracia, começando com uma profunda reforma da política, enquanto espaço comum de disputa de sentidos e projetos, e da institucionalidade política, partidária, participativa e eleitoral, de constituição da representação nos poderes executivo, legislativo e judiciário.
Um segundo elemento decorrente da enorme polarização que vivemos tem a ver com o que significará a vitória eleitoral de uma das coalizões, mesmo difusas como se apresentam. A democracia é um método de luta sem eliminação de adversários. Mais, a democracia é sempre de acordos e ações possíveis num quadro de relações de forças. Trata-se de uma “instabilidade criativa”, de “pactos de incertezas”. O bloco derrotado nas eleições é também parte do poder instituído e sem ele a própria democracia perde sentido. Claro, no Brasil, ainda estamos longe de admitir que uma vitória democrática não dá poder absoluto. Trata-se de um mandato delegado pela cidadania para dirigir responsavelmente o poder político e a gestão do Estado, sempre com responsabilidade compartida e controlada pelas forças adversárias. Ou seja, ganhará a cidadania e a democracia no Brasil se mais negociações entre forças políticas se tornarem necessárias para definir o melhor programa, as melhores políticas, as leis, regulações, taxas e impostos, os projetos e montantes do investimento público.
O terceiro aspecto, razão de ser de minha crônica, são os “subentendidos” da polarização. As ausências em termos programáticos se destacam dos dois lados. A polarização não se fez em torno de projetos e programas de futuro, mas de posições, de trincheiras de classes sociais, de regiões e territórios e de como a cidadania se sente ameaçada em seu modo de vida. Na verdade, destaco o subentendido das ausências pois elas são parte real da polarização e da disputa eleitoral, mas parte não debatida publicamente. Votamos dando um cheque em branco para os candidatos.
Aqui poderia destacar um monte de questões que precisaremos enfrentar desde o dia 27 de outubro, pois não poderão ser adiadas ou deixadas para ser resolvidas por si mesmas. A mais evidente é a crise ambiental, a nossa crise ambiental. No país das maiores reservas de água doce falta água! No imediato é uma questão de gestão, de falha das políticas, do esperar que o pior não aconteça. No longo prazo é também uma questão estrutural, de modo de desenvolvimento predatório, do modo como tratamos nossos bens comuns, entre eles um dos mais essenciais à vida: a água. A crise energética está ligada à gestão da água. A própria agricultura está ameaçada pela falta de água. Trago aqui o tema da água pois apesar do tamanho do problema parece que ele não existe.
O debate do desenvolvimento até apareceu nas entrelinhas, nos jornais diários impressos que atingem as elites das coalizões mas não o grande público, um debate entre assessores e gestores de políticas monetárias e fiscais, entre ministros e candidatos a ministros. Nada convertido para a disputa eleitoral aberta. No entanto, é dele que se trata. Lamentavelmente, estamos diante de ameaças de um neoliberalismo arrogante de livre mercado para crescer e de um desenvolvimentismo destruidor regulado pelo Estado para crescer com distribuição social. Está totalmente ausente, nem Marina simbolizou isto, o necessário debate sobre “alternativas” para transformar a economia e torná-la social e ambientalmente sustentável. Seria muito simples se nosso problema fosse apenas ter inflação controlada e boas taxas de crescimento, escolhendo qual o caminho para crescer. Nosso problema mais urgente é enfrentar a desigualdade social e a destruição ambiental ao mesmo tempo, de forma democrática. É neste futuro que penso quando proponho pensar em fundamentos éticos para modelos de biocivilização como futuro possível.
Isto me remete à questão totalmente ausente: que Brasil estamos construindo? Em que bases que não sejam destrutivas e socialmente excludentes? Para quem? Acho, como disse acima, a polarização política atual um começo, um ponto de partida. Simplesmente isto. Temos que aprofundar as contradições que ela contem e fazer emergir um real debate sobre o Brasil no século XXI. Penso num Brasil que possa caminhar mudando profundamento as bases da civilização atual do ter e acumular sem limites. Precisamos começar aqui e agora definir novas bases, tirando partido do que somos, um país de 200 milhões de habitantes, de uma cidadania ativa ímpar se olharmos o mundo, tanto em termos de tecido organizativo como em formas de participação social e política. Temos um enorme bem comum mundial a gerir, um dos maiores territórios cidadãos do planeta, com fantástica biodiversidade, água e minerais.
Termino esta crônica com uma ideia força no debate logo após a “solução” de nossa disputa eleitoral. Penso que temos o direito e a responsabilidade de pensar o mundo a partir do Brasil. As mudanças geopolíticas em curso, reveladoras da crise da civilização capitalista industrial,produtivista e consumista, não apontam somente para novas forças emergentes, potenciais imperialismos do amanhã. O momento pode significar uma oportunidade de mudar a organização da própria humanidade, em formas mais democráticas e compartidas. Neste sentido, a pergunta que, como brasileiros e brasileiras, não podemos postergar é “Que Brasil o Mundo Precisa?”. Será que estamos assumindo a nossa responsabilidade na construção de “outro mundo”?



Diálogos e Pesquisas: imagens do evento de ontem

Ontem o GEDEV (Grupo de Estudos Desenvolvimento e Violência) trouxe mais uma edição do Projeto de Extensão "Diálogos e Pesquisas", com o tema "O Anarquismo e o Saber Científico", palestra proferida pelo professor Bruno Camilo (UFERSA/DACS) e mediada pelo professor Ângelo Magalhães Silva (UFERSA/DACS/GEDEV). A mesma ocorreu no Auditório do DCAT, Campus Leste, UFERSA. Auditório cheio e entusiasmado debatendo a temática.












quarta-feira, 22 de outubro de 2014

II SIDACS - II Seminário Indedisciplinar do DACS/UFERSA



Diálogos e Pesquisas: O Anarquismo e o Saber Científico






O GEDEV (Grupo de Estudos Desenvolvimento e Violência) traz mais uma edição do Projeto de Extensão "Diálogos e Pesquisas", com o tema "O Anarquismo e o Saber Científico", palestra proferida pelo professor Bruno Camilo (UFERSA/DACS) e mediada pelo professor Ângelo Magalhães Silva (UFERSA/DACS/GEDEV).

Local: Auditório do DCAT Campus Leste (vizinho ao Expocenter)
Data: 22/10/2014
Horário: 19:30h

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Mal-Estar na Sociedade Brasileira

Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na USP e pesquisador 1-A do CNPq.
 
Por que nos sentimos tão mal na vida social? Este é um tema constante nas conversas, na experiência social, pelo menos do meio social e cultural a que pertencemos, nós, autores e leitores desta revista. Estamos insatisfeitos com a má qualidade dos serviços públicos. Muitos reclamam da corrupção que veem em um ou mais dos três níveis de governo. E há mais, muito mais. Mas, tal preocupação não parece adquirir tanta relevância no discurso e na prática dos políticos. O que, neste mal-estar, depende da política e de seus atores? E o que vem das linhas mestras da vida contemporânea, como, por exemplo, a crescente individualização, notada desde, pelo menos, o final do século XVIII, trazendo, por um lado, maior liberdade pessoal e, por outro, um enfraquecimento do laço social? Aqui, à diferença dos números anteriores da revista, e justamente porque este número vai circular durante as eleições, a ênfase será mais na vida social do que na política. Porém, o quadro aqui desenhado pretende ser também um desafio para futuros governantes e agentes políticos em geral.

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Há que perguntar, inicialmente, quem é este “nós” que sente tal mal-estar. Duas narrativas antagônicas cindiram a sociedade brasileira nos últimos anos. Por coincidência, a revista Inteligência dedica a capa de seu número mais recente ao que chama “Mal-estar na burguesia”1: quem estaria descontente seriam as classes médias e altas, ao contrário dos mais pobres, beneficiários principais da forte inclusão social ocorrida nos últimos dez anos. Temos, hoje, com efeito, um corte radical entre duas narrativas sobre o Brasil. Uma delas, a mais presente na opinião pública, isto é, na mídia e nas camadas sociais com maior acesso a ela, mas derrotada nas eleições gerais de 2006 e 2010, condena fortemente os governos do PT, entende que eles promoveram a corrupção em escala inaudita no País, acusa-os eventualmente de demagogia e até mesmo de comprarem votos populares com seus programas sociais2. Outra corrente, com menor presença na mídia, mas alguma frequência nas redes sociais –detentora de maioria no eleitorado nas eleições de 2006 e 2010 –, aprova os governos do PT, porque integraram na sociedade de mercado ou dos direitos grande número de pobres e, implantando programas como o Bolsa Família, o ProUni, as cotas e o Mais Médicos, melhoraram a vida de muitos brasileiros. Até mesmo no plano ético temos uma clara cisão. Para a oposição, a grande questão ética é a da corrupção ou não no trato dos dinheiros públicos, enquanto para a situação o ponto ético por excelência é o fim da miséria. O que para um lado é ético, para o outro, praticamente não se menciona. Vivemos, assim, uma divisão bastante acentuada entre duas visões do Brasil. O problema é que esse racha não se limita à interpretação dos fatos. Se tivéssemos pelo menos um acordo quanto aos fatos e uma divergência quanto à interpretação estaríamos possivelmente em uma situação melhor, do ponto de vista do diálogo. Mas, os próprios fatos são vistos de forma diferente pelas duas famílias da divisão. A oposição tucana concentra o fogo no que chama mau desempenho da economia, enquanto a situação nega que seja essa a condição real do País. E até mesmo no lazer vimos a divisão, quando segmentos da população que, em outros tempos, teriam torcido pela seleção brasileira na Copa do Mundo, afirmaram desejar a derrota do Brasil, para evitar que o governo fizesse uso eleitoral dela.
Daí que cabe a pergunta: mal-estar para quem? Temos um mal-estar da sociedade inteira ou ele está concentrado nas camadas sociais mais abonadas? Trata-se de um sentimento de forte marca ideológica, ou corresponde ele a uma realidade efetiva? Lembro que, quando, nos anos 1980, muitos de nós, professores universitários, reclamávamos da má qualidade do ensino público gerada pela ditadura – antes deste dado as escolas pertencentes ao Estado muitas vezes figuravam entre as melhores do País – e ouvíamos a resposta, dada já por gestores democráticos, como, por exemplo, colaboradores do governo Franco Montoro, em São Paulo, segundo a qual a boa qualidade anterior servia a uma elite, enquanto a má qualidade na época representava, apesar de tudo, uma promoção para as multidões que antes não tinham acesso à escola. Com efeito, até o final dos anos 1960, se prestava um vestibular, o “exame de admissão”, para se entrar no ginásio, que corresponderia ao atual sexto ano do ensino fundamental – o que hoje soa como uma política absolutamente desastrosa no trato das crianças, no caso, pobres. Certas reclamações precisam, assim, ser consideradas cum grano salis. Até porque não estão fora do quadro de uma forte polarização política que marca o País desde o momento – para uns feliz, para outros, infeliz – em que após o impeachment de Fernando Collor, os dois melhores grandes partidos que temos, PT e PSDB, assumiram cada um a liderança de um lado do espectro político. 

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sábado, 4 de outubro de 2014

A hipocrisia do Ocidente reforça o regime brutal de Assad

Na íntegra, do Observer, via Carta Capital.

Ao combater o Estado Islâmico com uma operação amplamente hipócrita, EUA e Europa estão atraindo apoio para o extremismo

Mulher curda chora ao cruzar a fronteira da Síria com a Turquia em Suruc, na quinta-feira 1º. Dezenas de milhares de curdos sírios deixaram o país nos últimos dias após uma nova ofensiva do Estado Islâmico

Por Nick Cohen

Depois que os militares corromperam a língua inglesa com a expressão "danos colaterais", eu gostaria de apresentar o igualmente delicado e igualmente enganoso "benefício colateral". Espero que você goste da maneira suave como o eufemismo escorre dos lábios; a sutileza imperceptível com que ele confunde a responsabilidade.
A frase implica, sem ser tão crua a ponto de dizê-lo em voz alta, que o Ocidente não pretende que criminosos em massa lucrem com suas guerras, assim como não pretende que civis morram em seus ataques aéreos. Quando os contadores da violência fizerem seu cálculo, se os ditadores forem tão triunfantes quanto os civis estão mortos, não é problema nosso.
Bashar al-Assad hoje desfruta dos benefícios colaterais da política externa ocidental. Não é que ele, e por extensão o Irã e o Hizbollah, seja nosso aliado formal. Ainda temos nossos padrões, afinal. Se o poder deles for reforçado, e o bombardeio e a chacina de civis continuar, lamentamos, naturalmente. São efeitos colaterais imprevistos que ninguém pode esperar que controlemos.
O sofrimento humano não é uma competição. Não se podem medir pilhas de cadáveres e reservar suas críticas para os mais altos. Mas quando Barack Obama se dirigiu à ONU ele nem sequer olhou para a montanha de corpos na Síria. Ele descreveu os crimes de guerra do Estado Islâmico, mas nem uma vez disse que o fascismo religioso foi alimentado pela guerra mais sangrenta que Assad lançou contra a versão síria da Primavera Árabe. "Vamos apoiar os iraquianos e os sírios que combatem para recuperar suas comunidades", gritou Obama. Mas só se eles estiverem lutando para recuperá-las do Estado Islâmico.
Entre 2011, quando manifestantes pacíficos exigiram a derrubada da ditadura do Baath que tiraniza a Síria desde 1963, e abril deste ano, a ONU disse que 191 mil pessoas foram mortas – acrescentando que o número é "provavelmente subestimado". Cerca de 9 milhões de sírios fugiram de suas casas. Para compreender a catástrofe causada pelo regime Assad, é preciso imaginar uma Grã-Bretanha apocalíptica onde toda a população de Londres – e mais um pouco – corre para salvar a vida. Assad lançou ataques de armas químicas nos subúrbios de sua própria capital. A galante força aérea síria despejou bombas incendiárias em pátios de escolas. Muitos milhares de pessoas, incluindo trabalhadores de socorro, advogados e médicos, desapareceram em suas prisões, onde seus carcereiros os espancaram, mutilaram e estupraram.
Obama poderia ter atirado ao regime Assad todas as condenações que atirou contra o Estado Islâmico. Ambos "aterrorizaram todos os que cruzaram seu caminho" na Síria. Ambos submeteram "mães, irmãs e filhas à violação como arma de guerra". Ambos "atiraram em crianças inocentes". Mas enquanto Obama disse que o Estado Islâmico chocou "a consciência do mundo", não conseguiu proferir uma palavra sobre Assad.
Eu admito que a consciência do mundo é tão flexível quanto um iPhone. E já mencionei antes como Obama se dobra ao vento. Mas seu comportamento, e o do Ocidente em geral, continua extraordinário. Vamos à guerra contra um inimigo bárbaro, mas ninguém fala sobre a barbárie que ajudou a criá-lo. O fato de que os ataques aéreos contra os inimigos de Assad deverão aumentar as probabilidades de sobrevivência do ditador não é um assunto adequado para discussão.
Estou tentado a escrever que a disposição de Obama a ajudar criminosos é nixoniana. As autoridades do Oriente Médio já estão examinando os intercâmbios diplomáticos com Teerã e especulando que ele ruma para seu próprio momento Nixon na China. Nadim Shehadi, da Chatham House, diz que Assad deve estar esperando a notícia de que Obama está pronto a permitir que ele domine a Síria e que seus asseclas iranianos dominem o Iraque e o Líbano também. Entretanto, talvez a comparação de Obama com o pior de seus antecessores seja bondosa demais. Nixon e Kissinger fariam qualquer coisa e apoiariam qualquer um que fosse contra a União Soviética. Apesar de todos os seus crimes, eles tinham uma objetividade brutal. Eu me esforço para encontrar algum tipo de coerência na política externa de Obama.
Assad não se importa. Ele sabe que está ganhando, sejam quais forem os motivos do presidente. Ali Haidar, o "ministro da reconciliação nacional", ronronou como a rainha ao ouvir o resultado do referendo escocês quando descreveu os ataques americanos a alvos do Estado Islâmico. "O que aconteceu até agora está procedendo na direção certa em termos de informar o governo sírio e não atingir instalações militares sírias."
Não discuto a necessidade de confrontar o Estado Islâmico. O islamismo militante conduzirá os cristãos e os zoroastrianos para fora do Iraque como já fez com os judeus. Os curdos, que poderiam ser nossos mais verdadeiros amigos na região, poderão sofrer mais massacres. A Grã-Bretanha tem uma responsabilidade moral especial de enfrentar o islã radical, já que nossa sociedade "vibrante" e "diversificada" forneceu ao Estado Islâmico tantos carrascos (ou teria uma responsabilidade moral se nossas forças armadas não tivessem perdido a batalha com George Osborne e ficado sem condições de enfrentar qualquer um).
Mas, assim como o Ocidente não reconhece o direito dos curdos à autodeterminação, também não aceitará que é impossível combater o Estado Islâmico na Síria sem oferecer esperança aos adversários de Assad. Em vez disso, continua propagando a mentira autenticamente orientalista de que os sírios são ou baathistas ou islâmicos radicais, e que não há alternativa à tirania.
Não acredito que essa linha se manterá. Por quanto tempo os países árabes sunitas ficarão na coalizão de Obama quando virem seus inimigos xiitas se beneficiarem? Como os sírios vão reagir ao duplo critério?
É como se todo slogan liberal da última década estivesse voltando para assombrar Obama. Você vai se lembrar de ouvir, ou talvez tenha dito pessoalmente, que deveríamos nos concentrar nas "causas originais" do terrorismo. A causa original do Estado Islâmico é o sectarismo xiita no Iraque e o assassinato em massa sectário na Síria. Mohammed Antabli, um líder dos exilados sírios na Grã-Bretanha, contou-me que levou políticos britânicos e europeus até a fronteira da Turquia com a Síria no início da guerra e os advertiu de que o islamismo floresceria se o Ocidente nada fizesse pela oposição moderada. E foi assim.
Você vai se lembrar de ouvir, ou talvez tenha dito pessoalmente, que não devemos alienar "a rua árabe". Kassem Eid, um ativista da oposição hoje exilado nos EUA, disse que as ruas que restaram na Síria foram alienadas além da conta. O mundo democrático nada fez. Nada de zona de exclusão aérea. Nenhuma tentativa de desacelerar Assad, mesmo por um dia, mesmo quando ele cruzou a "linha vermelha" de Obama sobre armas químicas. Todo ativista sírio com quem falei repetiu sua afirmação de que as hipocrisias ocidentais estão atraindo apoio para o islamismo.
Em seu 1 September, 1939, à véspera de outra guerra, W. H. Auden escreveu: "Eu e o público sabemos/ o que todos os escolares aprendem/ que aqueles contra quem se pratica o mal/ fazem o mal em troca".
Um grande mal foi feito à Síria. Não posso ver como qualquer projeto ocidental contra o Estado Islâmico poderá prosperar até que a "consciência do mundo" ofereça reparação, dizendo que não vai tolerar a continuidade do regime Assad. Neste momento, porém, o mundo nem sequer reconhece a existência do mal. Devemos esperar o mal em troca.

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